O diabo em mim

O diabo em mim

"O diabo em mim" é uma nova criação do Visões Úteis, com direção de Carlos Costa. Tudo começou com uma coleção de anúncios de feiticeiros, daqueles que se encontram nos limpa-para-brisas, a que o autor se entregou durante anos; com tanta dedicação, ou se calhar encantamento, que acabou por frequentar um curso de Tarot com Camelia Elias e Bent Sorensen, professores universitários que abandonaram a carreira académica para se dedicarem exclusivamente à cartomancia. 

O espetáculo lança um olhar sobre práticas propiciatórias, (IN)realidades capazes de operar num interstício entre desejo e medo. Sim, vamos ler cartas, uma absoluta incongruência agora que a Inteligência Artificial está ao nosso alcance. Sim, mais poesia do que senso comum. 

"O diabo em mim" - uma coprodução do Visões Úteis com o Teatro Municipal de Vila Real e o Teatro Académico de Gil Vicente - tem estreia absoluta no Palácio do Bolhão, no Porto, com apresentações em novembro de 2026, nos dias 27 (sexta-feira, 19h), 28 (sábado, 21h) e 29 (domingo, 16h).
 

Tudo começou, em 2021, Carlos Costa estreou “Versão Beta”, um solo em que mergulhava no passado, perdendo-se em três linhas da sua própria biografia: a) a sua primeira cassete vídeo; b) a leitura de uma obra de Marcel Proust; c) uma estreia prevista para 2038.

  1. Em 1984, recebeu o seu primeiro leitor/gravador de vídeo: um C-80 da Sony. Nessa noite, acreditou que controlaria para sempre a circulação de imagens no mundo, que controlaria o próprio tempo. O aparelho vinha acompanhado de uma cassete virgem de 30 minutos, que imediatamente começou a gravar, acumulando imagens que desafiam as relações entre afinidade e aleatoriedade. 
  2. Em 1995, iniciou a leitura de “Em Busca do Tempo Perdido”. Nesse momento, a bordo de um navio que atravessava o Mar Egeu, com uma camisola às riscas, acreditou que o tempo estava do seu lado e que a esperança de vida de um homem europeu lhe permitiria completar a tarefa.
  3. Em 2008, gravou-se a si próprio, em vídeo, interpretando os textos que Samuel Beckett - em Krapp’s Last Tape - indica como tendo sido gravados 30 anos antes. Nesse momento acreditou que 30 anos depois, em 2038, iria estrear o respetivo espetáculo.
     

Versão Beta - com registo acessível em https://vimeo.com/665291146/2d3611e8ca  e texto acessível em https://visoesuteis.pt/pt/publicacao/versao-beta - levou o autor  a perceber que se há uma coisa que não quer fazer aos 69 anos é precisamente um texto de Beckett protagonizado por alguém que faz 69 anos; compreendeu também que vai morrer antes de terminar a leitura de Proust; e quanto à cassete, é tempo perdido lá voltar. Pareceu-lhe então que o caminho seria em sentido contrário, deixando para trás de si, o lastro de Proust, de Beckett e das cassetes Sony.

Entretanto, há já alguns anos que o autor se dedicava, com diligência,  a uma coleção de anúncios de feiticeiros, daqueles que se encontram nos limpa-para-brisas. Isto sem mais razão do que o aparente fascínio com performances que se anunciavam voltadas para o futuro e, mais ainda, empenhadas na sua transformação. Do Professor Bacari ao Mestre Mafu, o amanhã parecia uma página em branco, sempre aberta a possíveis reescritas: amor, saúde, dinheiro, tudo.

E é nesta tentativa de entrada num mundo de encantamentos que Carlos Costa trava contacto com Camelia Elias e Bent Sorensen, professores universitários que abandonaram a carreira académica para se dedicarem exclusivamente à cartomancia. Fascinado com esta atitude - ele que também é professor universitário - inscreve-se imediatamente nos cursos fundacionais da Aradia Academy, completando em 2023 os seus três módulos (Tarot de Marselha, Cartas de Jogar, Oráculo de Lenormand): https://www.aradiaacademy.com/foundation-courses/p/three-foundation-courses

Ao longo destes 5 meses de trabalho intenso, o aprendiz - não de feiticeiro mas de cartomante - experiencia um profundo desvio cognitivo, convencendo-se que, formatado pelo século anterior talvez não pensasse bem, ou então não fosse capaz de mais do que pensar. Decide então sintetizar esta experiência num espetáculo a solo.

Procura-se a confiança perante a impermanência, numa alternância de poéticas – entre logos e mito – em que a única compaixão seja a da verdade. Trata-se de aprender a aceitar as práticas propiciatórias enquanto (IN)realidade, capaz de operar num interstício entre desejos e medos. Sim, vamos ler cartas, uma absoluta incongruência agora que a Inteligência Artificial está ao nosso alcance. Sim, mais poesia do que senso comum.

 

FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA

Direção, texto, interpretação: Carlos Costa Cenografia, figurino e adereços: Maria Manada Desenho de Luz: Pedro Correia Design Gráfico e Registo Audiovisual: Sara Allen Banda Sonora e Desenho de Som: Vasco Zentzua Coordenação de Produção: Cláudia Alfaiate Produção Executiva: Margarida Barreiros Feijó Parceria: Teatro do Bolhão Produção: Visões Úteis (2026), em coprodução com o Teatro Municipal de Vila Real e o Teatro Académico de Gil Vicente Agradecimentos: Bent Sorensen, Camelia Elias, Joana Ferrajão, Luís Mestre, Mafalda Banquart.
 

Classificação Etária: M/12 (prevista)

Duração Aproximada: 60’