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[ a viagem ] ¬ as ideias que nos guiam ¬ um projecto em três partes ¬ a viagem ¬ o site


[ as ideias que nos guiam ]

A Europa é o espaço que por excelência se definiu ao longo dos séculos pela sucessiva divisão em dois e pelo estabelecer de fronteiras. Não deixa de ser paradoxal que hoje a Europa esteja a tentar definir-se precisamente pela abolição de fronteiras. O paradoxo aumenta se levarmos em conta que a esta abolição de fronteiras poderá corresponder não só um reafirmar das identidades específicas que constituem a Europa (logo, a constituição de novas fronteiras) como um reforçar das suas fronteiras externas (pensamos agora, mais do que nunca, no que separa a Europa dos outros).

Assim, é natural que nos debrucemos sobre o conceito de fronteira, até porque, para além de Europeus, nascemos e vivemos no país Europeu que mais cedo definiu as suas fronteiras: Portugal.

A fronteira é uma área limite que define por separação. É a linha que nos põe face ao outro, que nos faz reconhecer que do outro lado está algo de diferente, de exterior a nós.
Por fronteiras não nos referimos apenas às barreiras físicas, culturais ou políticas que separam um povo do outro, mas também às barreiras que existem entre um indivíduo e o outro e às próprias barreiras internas de cada indivíduo.

É a consciência aguda destas barreiras que faz de nós seres divididos. Trata-se, afinal, do eterno conflito entre a necessidade de impormos fronteiras e a necessidade de lidarmos com o que existe para lá delas. Um conflito que não pode deixar de atormentar e encher de culpa o Europeu, filho de um continente que se divide entre a mais obstinada defesa dos Direitos do Homem e uma memória manchada pelos piores crimes da História da Humanidade.

A Europa parece hoje ter encontrado um mecanismo preferencial para expiar a sua culpa: o conceito de "politicamente correcto" permite-nos ter a sensação de que fazemos o bem e ajudamos, sem que realmente mudemos aquilo que nos envergonha. Mas pelo menos assim atingimos a tranquilidade essencial para continuarmos a viver e protegemo-nos do que parece ser hoje o nosso maior receio: o de sermos acusados de aviltar uma fronteira ou termos construído uma onde ela não existia.

Não deixamos, não obstante esta tranquilidade, de sermos seres divididos, e até nas formas de superação de fronteiras que a Europa sempre reconheceu encontramos esta divisão. Falamos do herói, o homem que supera os seus limites, que por isso inspira os outros e os leva a ultrapassar fronteiras até aí invioladas, e falamos da viagem enquanto percurso que nos leva a conhecer o outro e, pelo caminho, a nós próprios.

Olhando para os heróis que marcaram a nossa História facilmente entendemos que eles podem ser divididos entre os que foram motivados pela busca de um bem pessoal (como Hércules) e os que foram motivados pela busca do bem comum (como Jesus Cristo). Olhando para as importantes viagens que levaram o homem além fronteiras rapidamente reconhecemos que as maravilhas que elas proporcionaram ao conhecimento do mundo e do próprio homem não podem ser dissociadas das consequências menos benéficas (ou mesmo atrozes) para os espaços e povos "visitados".

Hoje os modelos de herói e viagem são outros. O herói já não é aquele que se predispõe a partir, a viajar, mas aquele que se predispõe a ser "viajado" pelos outros, ou seja, o que permite que todos os olhos percorram a sua vida até à intimidade. Nenhuma qualidade especial o distingue do nosso vizinho do lado.

A viagem, pelo menos fisicamente falando, começa a ser questionada pela facilidade com que conseguimos visitar um local sem sair de casa e como conseguimos encontrar o outro no espaço partilhado e quase livre de fronteiras que a Internet proporciona.

Serão então hoje ainda possíveis heróis e viagens?

Predispomo-nos a partir sem saber se encontraremos resposta ou se, por maior que seja o percurso, atravessaremos fronteiras.


[ um projecto em três partes ]

"Visíveis na Estrada através da Orla do Bosque"
é o projecto do Visões Útes para 2001 e passa por várias fases:

[ parte I: Estudos ]
o espectáculo de teatro que apresentámos no Porto em Abril de 2001.

Da análise teórica e reflexão dramatúrgica em torno dos temas - base deste projecto partimos para a fase a que chamámos de "Estudos". O conceito é inspirado na prática da escola teatral russa, que desde o primeiro ensaio de uma obra propõe aos actuantes uma análise vívida dos conflitos inerentes, ou seja, uma leitura prática da peça que envolva toda a fisicalidade do actor. Tendo sempre como base a peça a ser encenada, parte-se para um trabalho de improvisação onde o actor é livre de propor temas e situações que o ajudem (e ao colectivo) a encontrar uma personagem e, fundamentalmente, a equacionar os conflitos essenciais da obra. Estes trabalhos são mostrados ao público, criando-se uma estrutura externa mas mantendo o seu lado de exploração pura de ideias e sentimentos. No âmbito de "Visíveis na Estrada através da Orla do Bosque" criámos 4 estudos que foram apresentados como quadros independentes mas que se sucediam, em quatro divisões diferentes da galeria "Maus-Hábitos". Foram estudos sobre Fronteira, Outro, Herói e, um último estudo em forma de instalação, sobre a Peste.

[ parte II: Viagem ]
a que agora vivemos

Desde 1999 que o Visões Úteis tem reservado um espaço de reflexão e experimentação a que chamamos "Projecto Umbigo". Em 2001, com o apoio de Porto - Capital Europeia da Cultura, este projecto tem os moldes de uma viagem pela Europa contactando e trabalhando com instituições e personalidades que, de alguma forma, consideramos terem relevância para o nosso projecto "Orla do Bosque" e que vamos confrontar com as nossas visões e opções. Fazem a viagem: Ana Vitorino, Carlos Costa, Catarina Martins e Pedro Carreira, actores e directores artísticos do Visões Úteis; João Martins, músico; Nuno Casimiro, escritor; e Ágata Marques Fino, produtora executiva.

[ parte III: Orla do Bosque ]
espectáculo final

Em Junho estaremos de volta ao Porto. Traremos na bagagem experiências, opiniões, inspirações, divergências - uma colecção de outros olhares, que sem dúvida mudarão o nosso. É então a altura de sintetizar essas influências e deixar que delas nasça um novo objecto artístico a mostrar em Setembro/Outubro. É para que ele se construa que existe uma viagem; será na estrada que ele se irá definindo. Crescerá dos encontros que queremos marcar e da participação dos criadores convidados que nos acompanharão ao longo de cerca de dois meses. Este objecto final poderá ser não só um espectáculo de teatro, mas também um livro, um filme documental, um concerto, uma exposição, um workshop. Poderá até ser mais do que uma destas coisas. Será sem dúvida um retorno ao que nos fez partir, talvez mais um recomeço do que uma conclusão. Teremos encontrado uma ideia comum de Europa e/ou de teatro europeu? Seremos capazes de delinear temas, angústias e ambições basilares da arte europeia - poderemos ligá-los à própria História do velho Continente e ao modo como através dela cresceram as noções de indivíduo e comunidade? A etapa final deste projecto mostrará se a "Orla do Bosque" (e talvez a própria noção de Europa) está mais próxima de uma ideia de prisma, que filtra perspectivas várias e as agrupa numa qualquer personalidade partilhada, ou de bola de espelhos, onde cada olhar independente é fisicamente vizinho do outro e partilha a mesma luz, mas se lança na sua própria direcção.


[ a viagem ]

Ao longo de cerca de cinco semanas viajamos pelo velho continente procurando atitudes, métodos, visões paralelas e perpendiculares à nossa que nos ajudem enquanto artistas a procurar respostas e levantar questões - a dialogar. Partimos em busca não só da Europa mas da nossa consciência enquanto criadores/seres humanos que trabalham em arte.

¬ quem viaja?

7 pessoas, numa carrinha alugada. O "elenco" desta caminhada é constituído por 4 actores/directores do projecto global (Ana Vitorino, Carlos Costa, Catarina Martins e Pedro Carreira), 1 músico/compositor (João Martins), 1 escritor/repórter (Nuno Casimiro) e 1 produtora (Ágata Marques Fino). O projecto incluía a participação de 1 videomaker/realizador. Por motivos vários não foi possível, o que lamentamos. Ainda assim estamos a fazer um registo vídeo desta viagem.

¬ o que queremos?

Procuramos criadores que estejam ligados quer a uma ideia de Europa, quer às obras usadas nos Estudos; procuramos indivíduos e instituições com um sentido de História ligados à política, economia, religião, sociologia ou psicologia; procuramos o cidadão Europeu e instituições ligadas a uma ideia de comunidade.

Esta viagem tem uma dupla função: por um lado passa por pontos de contacto com o trabalho a desenvolver no projecto "Orla do Bosque", por outro é um contínuo acto de pesquisa, experimentação e investigação para os elementos do Visões Úteis pelo contacto com diferentes vivências e criadores (através de um trabalho teórico e, sempre que possível, prático) possibilitando intercâmbios e cooperações a nível internacional.


[ o site ]

Este site, mais do que a apresentação deste projecto é um instrumento de trabalho. Constituído por três partes fundamentais (alfabeto, na estrada e sons da orla) e duas secundárias (notícias e imagens) é construído ao longo da viagem e funcionará como um ponto de encontro entre as pessoas directamente envolvidas neste projecto e entre elas e os "outros".

Por isso, em todas as páginas encontrará um botão [ feedback ] que lhe permitirá enviar o seu comentário ao projecto em geral ou a qualquer aspecto particular que lhe desperte maior interesse. Esperamos poder contar com o maior número de colaborações possível e tentaremos publicá-las neste site, acrescentando, assim, uma nova dimensão a esta viagem. Obrigado.

[ alfabeto ]

O alfabeto é o arquivo do escritor/repórter de serviço (Nuno Casimiro). Aqui estarão as crónicas publicadas e a publicar pelo Diário de Notícias e instantâneos literários anotados ao longa da viagem, com o nome de polaroids.

[ na estrada ]

Contendo o itinerário actualizado da viagem e as notas de cada um dos criadores envolvidos neste projecto, na estrada assume o papel de memória do grupo e catalizador das discussões. Organiza-se em função dos sítios e das pessoas aos quais se referem essas notas e poderá vir a ser o hipertexto que tece este projecto.

[ sons da orla ]

Uma pequena explicação dos objectivos deste projecto paralelo do músico presente (João Martins) e notas actualizadas sobre os seus avanços.

[ notícias ]

Arquivo das mensagens enviadas à imprensa e para a mailing list do Visões Úteis, com informação actualizada sobre o decurso da viagem.

[ imagens ]

Arquivo de algumas imagens recolhidas ao longo do caminho.

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