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[ apresentação do projecto ao parlamento europeu]

comunicação perante a
Comissão do Parlamento Europeu para a
Cultura, Juventude, Educação, Media e Desporto

Bruxelas, 29 de Maio

Parlamento Europeu
Senhor Presidente,
Senhoras Deputadas,
Senhores Deputados,
Excelentíssimas Senhoras,
Excelentíssimos Senhores:

 

O Visões Úteis é uma companhia de teatro sediada na cidade do Porto e que conta com seis anos de actividade profissional. Produzimos já 18 espectáculos de autores muito diversos ou partindo de textos originais criados pela companhia.

Mas porque desde sempre privilegiámos a multidisciplinaridade e as potencialidades sociais que caracterizam o teatro, a nossa actividade não se tem restringido à produção e apresentação de peças na cidade em que vivemos. Levamos o nosso trabalho ao maior número possível de localidades portuguesas (desde a capital a aldeias isoladas pela interioridade), apresentamos espectáculos em estabelecimentos prisionais, trabalhamos com crianças e adolescentes de populações com acesso limitado a bens culturais, editamos as obras que levamos à cena e que não se encontram disponíveis em língua portuguesa e organizamos encontros de criadores de diversas áreas artísticas.

Apesar do tempo, dinheiro e empenho que todo este trabalho requer, continuaremos sempre a acreditar que o teatro é muito mais do que a encenação de um bom texto. No ano de 2001 a actividade do Visões Úteis está maioritariamente centrada no projecto a que chamámos "Visíveis na Estrada através da Orla do Bosque".

No seu cerne está a noção de fronteira, que numa primeira reflexão considerámos ser a linha que nos põe face ao outro, que nos define por separação em relação a esse outro que reconhecemos como diferente de nós, quer seja um outro homem, um outro povo ou uma outra parte de nós que rejeitamos.

Partimos assim de uma reflexão que é intrínseca à própria noção de Europa, o continente que ao longo da História se foi definindo pela constituição de fronteiras e que hoje, paradoxalmente, parece querer definir-se precisamente pela sua abolição.

Reflectimos ainda sobre dois importantes meios de superação de fronteiras, porventura ameaçados: a viagem, física, intelectual ou emocional, hoje redimensionada pela afirmação desse espaço navegável e aparentemente livre de fronteiras que é a Internet, e o herói, o homem capaz de chegar aos outros e uni-los, capaz do sacrifício pelos outros, hoje questionado pela facilidade com que os media expõem as contradições e fragilidades de quem querem e pela facilidade com que criam pseudo-heróis vazios de ideais, heróis que já não viajam, deixam-se viajar pelos olhos de todos.

A partir destas ideias planeámos um projecto em três fases:

• Na primeira, apresentámos ao público do Porto em Abril passado um espectáculo que reunia exercícios específicos em redor de cada um destes temas, e que por isso chamámos de "Estudos".

• Na segunda fase, aquela em que nos encontramos agora, partimos em viagem pela Europa para contactarmos, ao longo de mais de 10 000km de estrada e mar, com pessoas ligadas ao teatro, ao cinema, à literatura, à arquitectura, à política e à programação cultural - pessoas que pelo seu trabalho e pela sua vida influenciaram a nossa ideia de Europa, a nossa ideia de fronteira e de outro.

• Numa última fase, já de volta à cidade do Porto, partiremos para a concepção de um novo espectáculo onde as ideias que nos fizeram viajar serão pensadas à luz destes encontros e de todos estes quilómetros.

No início deste projecto, com o espectáculo "Estudos", falámos de fronteiras, do outro e do herói utilizando as linguagens que acreditamos estarem a impor-se no nosso tempo e na nossa Europa: a linguagem do discurso político- das palavras pensadas para não abrirem hostilidades ou acordarem velhas feridas -, a linguagem da conferência- da informação organizada -, a linguagem do contrato- do compromisso, do acordo benéfico para ambas as partes.

Em suma, uma linguagem politicamente correcta, mediaticamente interessante, o dito "diálogo" hoje amplamente apregoado, que tantas vezes esconde uma real incapacidade para comunicar com o outro, para reconhecer as diferenças e mesmo, quando necessário, para criar inimigos. Uma linguagem que se desenvolve à mesa, quer se esteja sentado em seu redor em reunião, quer se esteja, como aqui e agora, ocupando um dos seus lados opostos.

Esta mesa de comunicações será talvez, e por paradoxal que pareça, a grande fronteira dos nossos tempos, por subtilmente dividir conquanto pareça aproximar.

É fácil perceber que hoje o valor do encontro físico, da experiência do lugar do outro, da troca de ideias em lugar e tempo real, ou seja, o valor da viagem que tem o poder de re-perspectivar o nosso mundo é extremamente subestimado.
A prová-lo está a constante questão que nos colocam : "Mas porque é que é preciso lá irem?".
A prová-lo está a descrença do Ministério da Cultura português, que decidiu não atribuir este ano, ao contrário dos cinco anteriores, o subsídio estatal à nossa actividade por considerar este projecto (e passamos a citar) "bastante inconsistente", "duvidoso" e onde "não é possível identificar qualquer carácter inovador".
A prová-lo está também a falta de incentivos financeiros e logísticos da parte das mais diversas instituições para projectos que, não apresentando parceiros comunitários unidos numa relação de produção, visam proporcionar os encontros de que nascem as reais empatias, humanas e artísticas.

De certo modo sentimos que vivemos e trabalhamos num país que caminha para o estatuto de produtor de eventos culturais e numa Europa de projectos comunitários que surgem para resolver necessidades individuais e não para permitir a partilha artística.
Neste quadro, que ameaça constituir-se como realidade futura, o Visões Úteis e esta viagem parecem não ter lugar.

Ainda assim viajamos.
E nesta viagem, que ainda não concluímos e que a cada dia prova inequivocamente a sua relevância, apercebemo-nos de novas fronteiras e da inexistência de outras que considerávamos antigas. Repensamo-nos enquanto indivíduos, enquanto portugueses e enquanto membros desta união europeia.

Sentimos, por exemplo, na pele o peso da Mediterraneidade, quando percebemos que em Atenas estamos em casa e em Berlim nos sentimos estrangeiros, apesar de não entendermos uma palavra de grego e até esboçarmos algum alemão. Percebemos que a questão dos exilados (de Leste, dos Balcãs, do norte de África) que hoje vai ganhando peso em Portugal é uma das grandes questões de toda a Europa; a questão das suas fronteiras externas com o mundo, fronteiras que se cerram à medida que as outras, as internas, se diluem.

Partilhamos com os nossos convidados a crença na necessidade de manter a diferença que não é necessariamente má ou divisora; é a diferença que nos dá identidade, que nos dá algo a que possamos chamar casa. Mas reconhecemos também nestes convidados (como em nós próprios) a extrema dificuldade em enfrentar a fronteira, mais subtil e mais profunda, que nos separa daqueles que se encontram mais perto - como o persistente sentimento de divisão entre os berlinenses de Leste e os de Oeste, a separação entre Flamengos e Valões na Bélgica, a incontornável desconfiança do povo grego pelos refugiados albaneses que amistosamente alberga ou a nossa inexplicável incapacidade em encontrar para esta viagem um único convidado espanhol.

Parlamento EuropeuE por fim esbarramos nessa terrível fronteira que é a da indiferença, do desconhecimento: a linha que separa os que hoje estão aqui a debater estes temas dos milhões para quem nada disto tem qualquer relevância.

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