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Uma semana dividida entre Roma e Atenas, para encontrar Luca Nicolaj e Theo Angelopoulos, entre os vestígios da "Capital do Império" e do "Berço da Civilização", sempre com oliveiras na paisagem e azeite no prato.

Depois de duas horas parados na auto-estrada chegámos a Roma em fim-de-semana de eleições. Vimos as filas de pessoas para votar, numa afluência às urnas sem precedentes e que se prolongou até de manhã, com gritos e quase confrontos físicos, e acompanhámos os especiais da televisão sobre as eleições. Em Atenas vivemos hoje a greve geral, num dia quente sem táxis nem autocarros - é a falta dos autocarros nas ruas o principal sinal, pelo menos para quem não fala a língua, de que este não é um dia como os outros.

 

 

 

Em Roma tínhamos encontro marcado com o encenador Luca Nicolaj, dias 12 e 13 de Maio. Pretendíamos essencialmente confrontar as nossas abordagens à ideia e aos modelos de herói. Numa sala de teatro pequenina, perdida numa cave junto ao Vaticano, descobrimos, durante duas tardes de trabalho físico e de improvisação, pontos de contacto e de divergência na forma de encarar o teatro e os heróis. No domingo, depois de o acompanharmos à sua assembleia de voto, despedimo-nos com um gelado.

Saímos de Roma de forma atribulada. Queremos sair cedo porque temos um barco para apanhar em Bari. Mas descobrimos, quando nos preparávamos para partir, que a tranquila rua onde tínhamos estacionado a carrinha na sexta-feira à noite estava transformada num mercado. A carrinha estava cercada de barracas e a hostilidade perante os estúpidos dos estrangeiros é geral. Primeiro conformámo-nos com a impossibilidade de partir; vamos perder as reservas do barco. Num segundo momento resolvemos arriscar, insistimos ao limite para que afastem uma mesa e recolham umas roupas. O ambiente deteriora-se, mas depois a aflição de quem tinha um barco para apanhar a 400km comoveu-os, afastaram as bancas, e lá partimos.

No Porto de Bari, onde se falam línguas desconhecidas e se misturam italianos e gregos com albaneses, sérvios, croatas, etc., apanhámos o barco para Patras na Grécia.

E daí seguimos para Atenas, descobrindo um povo com uma fisionomia igual à portuguesa, e ruas que podiam ser as nossas.

Às 17h 00m do dia 16 de Maio, em Atenas, entrámos no escritório do realizador grego Theo Angelopoulos, reconhecido internacionalmente pelo público e pela crítica, vencedor da Palma de Ouro de Cannes pelo seu filme "A Eternidade e um Dia". Angelopoulos tem 66 anos e continua à procura. Volta sempre a este escritório para organizar as ideias e transformá-las em filmes, mas é na estrada, em movimento, com as paisagens a escorrerem pelas janelas do carro que se sente bem, que encontra algum do equilíbrio que, acredita, está no destino dos homens procurar. Fala-nos desta Europa que o assusta pela cisão que cria entre ricos e pobres, das fronteiras que o homem transporta dentro de si (as mais difíceis de abolir), de sentir-se um estrangeiro em todo o lado, do remorso que nos assusta quando, chegados à fronteira da morte, finalmente percebemos como devíamos ter vivido. Diz-se um melancólico mas não um pessimista: afinal, após cada era de trevas vem um novo tempo de mudança, e a utopia e o sonho são tão necessários ao Homem como o pão e a água.

 

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imagens ©Visões Úteis
sessão de trabalho com Luca Nicolaj, Roma
Theo Angelopoulos, Atenas

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