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Veria - 18 e 19 de Maio [ PC ]

Nas ruínas da escola do Aristóteles, um amigo recente, falou de Deus e dos Homens que o procuram. Havia duas cavernas em lados opostos: uma para os Homens e outra, sem escadas, para os Deuses... Sair da caverna é a maior viagem que se pode fazer. Cá fora está certamente um guia à nossa espera que nos ajudará a viver o dia-a-dia. O plano é sair da caverna. Depois disso não pode haver planos senão não há vida, não há aprendizagem.

Veria - 18 de Maio [ AV ]

Por muito valiosos que todos sejam, aos poucos os encontros começam a dividir-se entre as entrevistas, mais ou menos afáveis, e as verdadeiras reuniões entre pessoas que querem trocar vivências, opiniões, preocupações.
Thomas Liolios define-o bem, ao fim de algumas horas da conversa ininterrupta que se iniciou assim que nos reencontramos em Veria: "Sinto-me como se tivesse um barril de água que quero partilhar com vocês e tivesse apenas uma pequena torneira para o fazer, incapaz de dar vazão a toda a água. Mas talvez o mais importante não seja a água que se partilha realmente mas reconhecer a pressão que ela faz, quer do meu lado quer do vosso".
Na ânsia de partilhar falamos um inglês imperfeito que todos entendemos. Esse inglês que, preconizava Angelopoulos há dois dias atrás, será dentro de alguns anos a língua materna de toda a Europa e de todo o mundo.
Não deixa de ser interessante comparar as perspectivas destes dois gregos acerca do tempo em que vivemos.
Para Theo Angelopoulos, imerso na sua Atenas barulhenta e poluída na qual diz sentir-se um estrangeiro, dividindo o seu tempo entre a Grécia que filma e o estrangeiro que o solicita, para este homem melancólico que diz não ter casa a Europa (como, aliás, o resto do mundo) está num caminho descendente, numa "fase de trevas", onde o capitalismo exibe a sua arrogância, onde o lado utópico, sonhador, lúdico dos homens vai sendo substituído pela busca do conforto fácil e as diferenças entre pessoas e populações vão-se esbatendo e dando lugar a uma massa mais ou menos homogénea.
Para Thomas Liolios, vivendo na calma da verdejante Veria mas vizinho próximo dos conflitos balcânicos, preservando as tradições da região grega da Macedónia e convivendo com a nova República da Macedónia cujo nome se recusa a reconhecer, tentando através de uma programação cultural variada seduzir os jovens adultos a fixarem-se na sua terra natal, para ele este é um bom tempo, uma oportunidade única de paz e debate para a construção de uma Europa harmoniosa e rica de diversidade, uma época privilegiada para preparar uma nova consciência de humanidade e de vida conjunta.
A verdade está no meio?
Vivemos num tempo de fio de navalha, num tempo de fronteira?

Veria - 19 de Maio - Thomas [ CC ]

Thomas fala connosco acerca da necessidade de aceitar os outros, de estar em paz com eles, de acarinhar as diferenças. Ainda assim sente-se triste por já não poder ir com a mulher para a pequena quinta, que têm algures mais a norte; é que aquilo está cheio de Albaneses que deitam a mão a tudo o que podem, sem olhar a meios. São culturas diferentes, diz ele mais devagar, valores diferentes, o roubo para eles não é a mesma coisa que para nós.
E pronto é este o homem que quer muito que o Visões Úteis apresente o espectáculo final deste projecto em Veria. Porque sim, porque descobriu uma afinidade, porque quer que as pessoas da sua cidade percebam que do outro lado dessa tal Europa há gente que tem as mesmas preocupações.
Este homem que nos leva ao palácio de Alexandre e à escola de Aristóteles e que nos aponta na rua um velho que, há algumas dezenas de anos, vendeu ao inimigo as informações que levaram à captura e execução de muitos habitantes de Veria. Um deles era familiar de Thomas.

Veria [ CM ]

Os deuses escolheram para viver um paraíso terreno. Os homens que sabem e podem escolher onde vivem seguiram-nos. Veria fica ao pé do monte Olimpo e do monte onde vivem as musas. Era lá mesmo ao pé o palácio de verão de Alexandre, o Grande e a Escola de Aristóteles. São tudo locais de sonho, necessariamente inspiradores (e por isso inspirados, ou escolhidos por quem sabia usar a inspiração?). Se os gregos têm uma cabeça de mármore nas mãos e não sabem onde a pousar, os meninos de Veria jogam à bola com essa cabeça. Se não o fizerem, e sentirem o peso da cabeça de mármore que lhes coube, são esmagados.

Mouskari-o [ CM ]

As crianças que descobrem a música com a Eva conhecem o Mouskari-o como ninguém. Contam-nos a sua história em músicas que todos reconhecem, mesmo que estejam a milhares de quilómetros da Grécia. Só não reconhecemos as palavras, mas se ouvirmos o seu som com atenção podemos imaginar a vida do Mouskari-o, mesmo sem saber de quem, ou de quê, se fala. Resta tentar contar a história que adivinhamos com as músicas que nos ofereceram.

Thomas [ CM ]

Com um pé no Oriente que lhe fala de comunidade e um pé o Ocidente que defende o indivíduo, Thomas fala de relação como a chave para tudo. Acredita que este é um momento chave, o período em que tudo pode acontecer, e podemos caminhar para uma vida conjunta com as fronteiras nos sítios certos - aquelas que dizem que todos são especiais mas não nos separam. Quando ele fala a uniformização é um monstro com cara de império decadente, quase a ser substituído por uma pauta de música bizantina onde se marcam as relações entre as notas e não há lugar para valores absolutos quando se está só.

Montes [ CM ]

Estrangeiro é muito difícil ser nesta Europa cada vez mais uniformizada porque passamos todos os dias. É mais fácil ser estrangeiro em Vila Boa, uma aldeia perdida na beira interior, do que em Atenas. Ainda assim fomos estrangeiros na Grécia; quando perdemos as referências, fizemos todo o terreno em montes desconhecidos, vimos uma cara de outro mundo a seguir-nos com olhos incrédulos e tivemos como guias salvadores motards ainda mais espantados do que nós por estarmos ali.

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