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Roma, 11 de Maio, Diabolik - il giallo a fumetti [ CC ]

Morreu Luciana Giussani. 40 anos depois de ter criado uma personagem que ainda hoje atravessa mensalmente a Itália com inéditos e reedições, sempre aos quadradinhos, claro. Com Diabolik engendrou um universo moral muito próprio, que se encontra nos antípodas de um modo de ser politicamente correcto que atrofia os nossos tempos. Diabolik, com a ajuda do seu amor Eva Kant, rouba, com fins puramente egoístas, e mata quando é preciso. E ainda assim parece encontrar espaço para definir claramente o bem e o mal, o certo e o errado, o amigo e o inimigo. Longe, muito longe do nosso mundo. A redacção da revista diz que Luciana Giussani se foi embora corajosamente, serenamente, silenciosamente. Tal como tinha vivido.

Roma - 12 e 13 de Maio [ AV ]

Talvez não existam hoje heróis por não haver quem se predisponha à ferida, essa ferida de que fala Luca Nicolaj como sendo o destino do herói, aquilo que o faz sofrer (ou mesmo morrer) mas que simultaneamente faz dele um ser extraordinário ao dar-lhe um sentir da Humanidade e a oportunidade do sacrifício.
Hoje os "grandes" actos fazem-se empunhando uma caneta ou premindo um botão. Hoje os que se fazem de heróis expõem a sua humanidade como uma ferida que fingem partilhar corajosamente com os outros. Como faz Silvio Berlusconi ao publicar a sua suposta intimidade numa revista de campanha, dando-nos a conhecer os seus "segredos privados", as recordações do seu pai, os seus hábitos diários. Como se as emoções fossem mais fortes por pertencerem a uma figura pública. Como se pudéssemos acreditar nelas quando são usadas como instrumento de campanha.

O gerente do hotel de Roma, convencido de que o estamos acusar de tentar roubar-nos nas contas telefónicas, faz-se ofendidíssimo e declara: "É que lá fora diz-se que os italianos são ladrões. Nós não somos ladrões! Desonestos, sim. Ladrões, não!"

Roma, 13 de Maio, ideias de herói [ CC ]

Em Milão encontrámos uma Emma Bonino quase saída dos textos clássicos. Em greve de fome, hiperenergética, reclama que se distinga o agressor do agredido e aceita compromissos sem tolerar comprometimentos. O seu discurso, o seu olhar, os seus gestos aproximam-se assustadoramente de uma das personagens que criámos, a partir do mito de Prometeu, para a primeira parte deste projecto.
Em Roma, no trabalho realizado com Luca Nicolaj, descobrimos uma abordagem do herói mais afastada dessa dimensão política e social, e mais concentrada numa dimensão individual em que se procuram rastos de fragilidade e a exposição de desejos e incapacidades.
Pergunto-me se, na nossa fobia de fazer e discutir aquilo que verdadeiramente importa para os outros enquanto comunidade, não os estaremos a deixar cair, pura e simplesmente enquanto pessoas.

13 de Maio [ CM ]

Dia da aparição da Nossa Senhora em Fátima. Aniversário do atentado falhado contra o Papa, como previu depois o terceiro segredo de Fátima. Dia da Mãe, pelo menos em Itália. Dia para oferecer flores à mãe com o símbolo da luta contra o cancro, e assim doar mais um bocadinho de mamografia. Dia de eleições em Itália. Dia da grande corrida às urnas. Dia da vitória de Berlusconi.

Roma [ CM ]

As pedras são imponentes de tantas, mais do que por qualquer outra coisa. Mas porque o passado tão remoto é para mim como uma fábula, impressionam-me mais as hordas de turistas do que o Coliseu. E parece quase idiota a forma como gente oriunda de todos os cantos do planeta, que aparentemente nada tem em comum, olha para as mesmas coisas, procura ver o mesmo. Mas quando se olha todo o formigueiro humano, que mesmo com o sol, o pó, os outros, tenta reter mais uma imagem de um monte de pedras percebe-se que alguma fronteira é ali quebrada. Pode ser-se cínico e dizer que é aparente, falso, ou por razões que de tão más criam novas e maiores fronteiras. Eu não sei porque é, mas acho fácil de mais ser cínico.

Luca [ CM ]

A maior conquista do nosso encontro com o Luca foi a forma como estivemos uns com os outros. Não deixa de ser espantoso encontrar alguém que está disposto a trabalhar no vazio, a experimentar o inútil. Mas mais espantoso foi a forma quase esquecida com que trabalhámos com ele. O Luca queria o pessoal. Nós de tanto nos conhecermos, de tanto já termos trabalhado juntos, procuramos o geral. Ele forçou, sempre delicado, quase tímido, e nós demos. Não interessa muito o que demos, já todos conhecíamos o que os outros ofereceram, mas a forma como o fizemos: o esforço, a falta de rumo, a falta de jeito. Mas foram esforços, faltas de rumo e de jeito de actores - a última vez que o tínhamos feito ainda nenhum sabia o que iria ser quando "fosse grande" - e por isso material que faltava, que vamos ter de ser capazes de encontrar novamente. Agora sozinhos.

Luca/Roma - 12 a 14 de Maio [ PC ]

O agá de Herói pode ser descoberto ao fundo de um palco numa cave do Vaticano por um actor que lambe as feridas de uma longa caminhada?

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