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Paris – 3 de Junho [ AV ]

E se no fim de tanto debate, tanta procura, tanta reflexão em torno das fronteiras, da Europa e do outro, a questão fosse apenas esta: algumas antigas potências colonizadoras têm medo – medo da vingança dos colonizados que agora justamente reclamam a sua compensação e medo do seu próprio poder autodestrutivo. Medo de estarem sós face à “ameaça” do resto do Mundo e medo de estarem juntas após se terem digladiado durante séculos.

A velha senhora Europa sorri com optimismo e simpatia enquanto cruza os braços para parecer firme. Mas talvez esteja só a proteger o tronco da inevitável tempestade que se adivinha. Pode dizer-se dela o que se diz de qualquer homem: enquanto não fizer as pazes com o seu passado não terá serenidade para encarar o futuro.

Paris, 3 de Junho, fora de moda [ CC ]

Danan pergunta-nos se viemos de avião. Respondemos que viemos de carro. Ele pensa durante alguns segundos e confessa que o que queria mesmo era ter perguntado se tínhamos vindo de carro; mas achou que a pergunta poderia parecer bizarra porque hoje já pouca gente viaja assim; por isso, para saber se tínhamos vindo de carro, perguntou se tínhamos vindo de avião.

Paris [ CM ]

Nas margens do Sena e nas suas pontes reconheço imagens de filmes que não esqueço. A luz do pôr do sol é mais bonita do que a ficção. Paris é a imagem de Capital da “minha” Europa. Se bem que a Paris de Mitterrand que vimos pelo canto do olho me pareça tão assustadora como a Berlim Prussiana que estão a construir. Mas não tem águia...

Instituto do Mundo Árabe [ CM ]

Do terraço do Instituto do Mundo Árabe vemos Paris brilhar ao sol. A Torre Eiffel aparece dentro de um dos diafragmas que controlam a entrada de luz no edifício tecnologicamente mais avançado do mundo. Na livraria reparo que toda a literatura árabe tem presente a ideia de viagem; do romance, à poesia, passando pelos policiais. Mais tarde Danan dir-nos-á o que já sabíamos: os outros para os franceses são os imigrantes árabes.

Joseph Danan [ CM ]

A conversa parece o compor do puzzle das conversas anteriores. Principalmente com Ramin Gray e Gregory Motton, mas não só. A procura e diversidade das formas no teatro cruza-se com as questões que os novos meios levantam também à viagem. E as ideias de que o meio para a universalidade é o local e de que a diversidade é essencial continuam sempre presentes.
Danan pergunta-se se o imperialismo americano já não o assusta como assustava, porque nos últimos 20 anos percebeu que as diversas culturas europeias resistem, ou porque já foi ele próprio tão colonizado que já lê o mundo com olhos de outros. E a pergunta que ele faz sobre os medos generalizados dos intelectuais franceses é provavelmente a pergunta que tem de ser feita permanentemente para se tentar situar o caminho que percorremos. Parece-me é que é impossível responder-lhe. E o optimismo com que parece lidar com tudo isto atrai-me, mas assusta-me.

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