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No centro da Europa [ CM ]

Da Alemanha à Bélgica em auto-estrada passámos a Holanda sem sequer a ver. Em Berlim tínhamos dito a Nina Libeskind que iríamos assistir a uma conferência do marido em Aachen, na Alemanha mas na fronteira com a Holanda, porque íamos estar mesmo ali ao lado: na Bélgica. E foi o que fizemos. Depois, de Bruxelas para Londres, fomos apanhar o barco a França, a Calais. Tudo viagens curtas, as mais longas do tipo Porto/Lisboa. Não há evolução, desenvolvimento, tecnologia, subsídio ou seja o que for que possa apagar esta verdade geográfica e absoluta: há centro e há periferia. Nós vivemos na periferia.

Londres, 30 de Maio - faixa estreita [ CC ]

queria fechar os olhos e cair para trás
bem no meio da água
naquela faixa estreita que o sol iluminava
nos fins de tarde da Francemar

Londres, 31 de Maio - do Punk ao Techno [ CC ]

Saiu um novo livro do Irwin Welsh. Chama-se Glue. Na contracapa diz-se que é sobre o crescimento, sobre a longa viagem de um grupo de amigos, do Punk ao Techno...do Punk ao Techno...volto a ler para tentar perceber melhor...a distância parece-me demasiado longa para ser viajada por seres humanos, como é que terão conseguido...é que 20 anos postos assim parecem uma eternidade...e ainda assim, num livro recente sobre a ideia de História, um senhor, cujo nome não me recordo, dizia que num eventual futuro museu interestelar a secção intitulada " 2 milénio DC" terá apenas dois objectos, por exemplo, uma armadura das cruzadas e uma lata de coca-cola. Lembro-me dum poema em que o Al Berto diz algo como "tenho trinta e oito anos, está na altura de começar a pensar em morrer".

Londres, 31 de Maio [ AV ]

Gregory Motton está para este projecto como, no dizer de Vasco Graça Moura, a Inglaterra está para a União Europeia. Às vezes parece que diz não só para ser do contra. Mas foi esse o papel que sabíamos que ele teria. Foi por isso que o convidámos – para nos dizer com uma velha canção dos Beatles que se pode conhecer o mundo sem sair de casa; para arrasar numa frase com todas as belas intenções de harmonia que a Europa proclama; para nos dizer que se calhar não faz sentido fazer teatro, se levarmos em conta que as pessoas não querem teatro (“pois não?”, sorri ele provocador).
Ramin Gray considera-o um herói. Um resistente nesta Inglaterra de “bom teatro” e “bons projectos dramatúrgicos”. Alguém que chama “os bois pelos nomes” e que não fica satisfeito por muitas pessoas por essa Europa fora admirarem o seu trabalho. Motton é inglês, quer ser inglês, e escreve para uma Inglaterra que se recusa a ouvi-lo. Sente-se perdido num sistema que finge ignorá-lo enquanto simultaneamente distorce as suas obras, num mecanismo perfeito e inabalável de autoprotecção.

Londres [ PC ]

This is a local shop for local people...
There’s nothing for you here...

O que é de facto ser local como defendem o Ramin Gray e o Gregory Motton para a arte? Onde está a universalidade da obra-de-arte?
Não será que ao querermos descontextualizar, por exemplo, um texto de teatro retirando-lhe referências geográficas e temporais para o tornar ‘universal’ e ‘intemporal’ o estamos a esvaziar de sentido e a destanizar? Cada vez mais acredito em algo que foi bem referido pelo Gregory na frase: se eu descrever a minha mãe com bastante pormenor um tipo do outro lado do mundo vai reconhecer a sua mãe nas minhas palavras (na minha mãe). Se calhar só assim conseguiremos fazer com que as pessoas percebam no teatro uma forma de arte que lhes é próxima, em vez de exercícios de estilo sobre ideias que de tão universais pertencem ao planeta Marte.

Londres [ CM ]

Londres é neste momento a cidade mais multicultural do mundo. E isso sente-se nas ruas. É verdade que o turismo não é multicultural, por isso é difícil ter a real noção de Londres nos jardins do Palácio de Buckingham. Mas basta ir até à zona 2 do metro, ou nem isso. E nas ruas de lojinhas indianas e árabes, com as famílias negras vizinhas das loiras, que têm lixo, barulho, cheiros intensos a legumes de todos os cantos do mundo, Londres é a cidade mais acolhedora do mundo para as pessoas do mundo inteiro.

Londres, 1 de Junho, o papel da arte [ CC ]

Motton diz-nos irritado que a arte assim não serve. Hoje o poder exerce-se já não através da brutalidade mas sim da mentira. E os artistas limitam-se a participar na celebração do mundo que deviam mudar. A arte tem de deixar de ser celebração para passar a ser algo de diferente, nem que para isso deixe de ser arte, pelo menos no sentido em que a entendemos hoje.

Gregory e Ramin [ CM ]

Há amizades, cumplicidades, perfeitas. Como a de Gregory Motton e Ramin Gray. Gregory é muito forte no que acredita, construiu o seu mundo em oposição ao mundo em que vive, certo que esse é o único caminho possível, pelo menos para si. Mas a força da opção retirou-lhe a força necessária para estar com os outros sem que o sofrimento seja superior ao prazer de partilhar, que lhe é essencial. Ramin admira o génio e coragem de Gregory e vive no quotidiano as contradições de quem não se pôs à margem. E tem a sensibilidade e inteligência únicas que lhe permitem fazer a ponte entre o que admira e o mundo em que vive. E a extrema generosidade de nos ajudar, e ao Gregory, a estarmos juntos.

Gregory Motton e Ramin Gray [ CM ]

O inglês tornou-se uma língua internacional à revelia dos ingleses. O imperialismo americano tirou ao inglês o direito a ser uma língua étnica. Aos ingleses não agrada nada a uniformização, mesmo que construída numa língua dita sua. E estão na Europa, como sempre estiveram, para assegurar a sua diversidade. Ao destruírem a construção europeia salvam a Europa.
E não percebem nem vêm com bons olhos estas manias continentais (francesas) de conversar sem propósito concreto. O que é que querem? Fazer uma peça? Afinal, qual é a pergunta?

Gregory Motton [ CM ]

Hoje vivemos no pior e mais violento de todos os regimes. Vivemos na mentira. Uma mentira que escolheu para si as palavras rebelde, revolução, e atira aos que se lhe realmente opõem os piores insultos; fascista, perverso. Uma mentira que nos isola uns dos outros para que fiquemos mais indefesos e nos uniformiza para poder vender o mesmo em todo o mundo. Mas isso já nós sabemos, não é nada de novo. É um acto de resistência ter uma família, tomar conta dos filhos e fazer opções diferentes das que a televisão nos vende. Quem não dá ao filho o que todos os miúdos têm é perverso. Mesmo que o que esteja em causa seja, como quase sempre, perverso. Mas isso não é nada de novo, isso já todos sabemos. A arte tem de ser um acto de resistência, e a única forma de resistir hoje é ser antiquado - já não se pode andar em frente, este caminho não leva a lado nenhum, é preciso ter a coragem de recuar -, e contido – não é nada excitante ou espectacular, mas é verdade. A melhor arte produz-se a celebrar a vida. Infelizmente hoje não há nada para celebrar. Celebrar é fazer parte da mentira. Teremos de fazer arte mesmo assim. Não é brilhante, é o mundo em que vivemos. Mas isso já sabemos, não traz nada de novo. E só se pode escrever sobre o que se conhece. Há que ser local para se poder ser universal. E nesta viagem por fora de casa já todos o sabemos. Todas as pessoas com quem falámos o disseram.

Ramin Gray [ CM ]

Ao Ramin interessa a forma, mais do que conteúdo. Forma no sentido de bem escrito. Não importa a história que se conta para se dizer o que se quer. Importa é dizê-lo bem e saber o que se diz. Ramin não acredita no artista feliz porque alguém encontrou um significado possível para a sua obra em que nunca tinha pensado... “Sim, pode ser sobre isso”. Afinal, sobre o que é que se escreveu? Nem acredita que escrever uma boa peça seja escrever uma fantástica produção. E Ramin volta a pôr a honestidade no conceito de bem escrito. E as palavras voltam todas a fazer sentido.

Royal Court Theatre [ CM ]

A ideia fundadora em que todos os que lá trabalham acreditam (ainda que acreditem em formas diferentes de a concretizar) é simples: pôr o escritor no centro do teatro. Há uma aposta clara numa ideia de teatro e que é trabalhada a sério. E por isso há uma forma de escrever a que se chama peças Royal Court. O que é mau, principalmente na sua vertente de actuação internacional, porque significa que uma ideia na raiz boa e honesta foi impondo a sua forma aos outros e eventualmente matando outras boas ideias. Mas se calhar o problema não tem nada a ver com o Royal Court. O Royal Court é simultaneamente honesto, aberto, generoso e imperialista. Resta saber se o imperialismo é consequência da ideia boa e forte ou da preguiça dos muitos que não tiveram nenhuma ideia. Eu gosto da ideia potencialmente boa do Royal Court. Só que não é a minha ideia de teatro. E isso não é um problema.

Gregory Motton - Londres [ PC ]

O Gregory vive numa ilha dentro de uma ilha dentro de uma ilha que é o Reino Unido. Há poucos barcos para essa ilha e ainda não foi construído um túnel. O Gregory não tem muita vontade de sair de casa, de deixar a família, de estar com muitas pessoas, de ver televisão... e tem todas as razões para isso. Ele não é radical, nem muito louco e muito menos anda a celebrar esta treta de mundo que nos impingem nos Big Brothers e Séries de TV. Ele tem medo... e tem razões para isso. Ele não sabe para quem escreve ou até se alguém se importa. Diz que ainda é capaz de haver alguns heróis por aí, estão é escondidos. Na sua última peça aparece uma personagem que é Deus. O Deus do Gregory não tem nada de herói... tem medo, está cansado e receia que os Homens o compreendam mal. Satã faz o trabalho sujo por ele e ambiciona morrer.
O Diabo que nos carregue.

Ramin Gray - Londres [ PC ]

O trabalho que o Royal Court faz a nível da dramaturgia/escrita teatral é excepcional no que concerne a descobrir novos escritores e a impulsionar a escrita em certas comunidades e países. Durante a nossa discussão levantou-se uma questão: não será esta forma de ensinar/estimular um certo tipo de teatro uma forma de fechar as hipóteses que um jovem escritor tem à partida ou mesmo uma forma de colonialismo não premeditado? Eu acho que não podemos culpar o RC pelo trabalho que faz mas sim louvá-lo. Penso que o problema de não haver outras formas de dramaturgia tem a ver com o facto de outras estruturas não apostarem numa procura de novas formas como faz o RC. Dessa forma poderia haver mais escolha para quem está a começar a fazer teatro. Os criadores não se podem desresponsabilizar do estado em que a arte está neste momento (seja ele bom ou mau) e atirar as culpas para quem faz algum trabalho. Mau é não haver opção.

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