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San Sebastian, 4 de Junho, viajar [ CC ]

Fica-me aquela ideia na cabeça: não viajamos para ir ter com os outros, viajamos para ir ter connosco.

Sarah Kane e Manu Chao [ CM ]

Saímos de Portugal e estava em cena uma peça da Sarah Kane. Quando chegámos a Atenas também. Em Londres estivemos no Royal Court Theatre onde estavam duas em cena. Em Paris, num teatro mesmo em frente à casa de Joseph Danan, Sarah Kane outra vez. Fico sem saber o que pensar: o que ela escreve encontra tal eco nos quotidianos de tantos e diferentes europeus que é natural esta urgência generalizada de fazer os seus textos, ou terá o sistema (a mentira, como diria Motton) tornado Sarah Kane na sua última rebelde de estimação?
Ao mesmo tempo, de forma mais discreta, acompanha-nos também Manu Chao. Mesmo sem se falar nele. Está o CD “Clandestino” na carrinha. Nas conversas com os convidados nunca foi sequer mencionado, mas não houve conversa em que os clandestinos da Europa não fossem também tema. Em Paris vejo no canal Arte um documentário sobre Manu Chao. E este “clandestino” que canta em espanhol, francês, inglês e até português é provavelmente o mais perfeito europeu com que nos cruzámos nesta viagem.

Emir Kusturica [ CM ]

Kusturica não estará connosco. Anda de um lado para o outro e os nossos percursos não se conseguem nunca cruzar. Ele é provavelmente a dor de cabeça de qualquer produtor. Imprevisível e irascível. Se calhar por isso as suas obras são tão geniais. Pelo menos gosto de acreditar que são faces da mesma moeda. Claro que se acredito nisso, não é lógico o esforço despendido a tentar o encontro. Seria impossível à partida. Não lhe poderemos perguntar o que é ser órfão de país. Nem como se pode invejar a liberdade dos ciganos e sofrer tanto por não ter pátria. Provavelmente está tudo na obra dele. Falta-nos o olhar dele. Resta-nos a consolação de saber que o olhar dele também cai sobre as árvores que correm do outro lado da janela de uma carrinha. Tal como o nosso. Como em "Super 8 Stories".

San Sebastian [ PC ]

A viagem está a acabar. Agora só faltam aqueles últimos quinhentos quilómetros em que nada se passa. Em breve estaremos em casa a arrumar as roupas e os livros que levámos e não lemos e a passar as últimas notas no computador. Agora, depois de muita gente e muitos sítios, penso que é mais fácil ver o lado mais escuro nas pessoas, o seu lado de conflito, o seu lado de cegueira e egoísmo, o seu lado que se contradiz, o seu lado que está farto , o seu lado político, o seu lado que não conhece o vizinho, o seu lado que tem medo... quando no fundo estamos todos a tentar safarmo-nos o melhor que podemos até à fronteira e a tentar ter os papéis em ordem para entregar ao guarda. Ou se calhar não...

Em casa – 5 de Maio [ AV ]

Que estranho é esse caminho para casa que já não é viagem com percalços e descobertas, mais parece um longo obstáculo, um preço a pagar pelo descanso que o lar lá ao fundo promete.
Que estranha é a alegria de ver a placa que marca um dos inícios do nosso país, e a vontade de cumprimentar efusivamente o dono da primeira estação de serviço portuguesa onde paramos. A vontade de comprar jornais, tabaco, comida, beber café, só porque são “dos nossos”.
Em casa desfaço a mala enquanto ouço canções de Veria num CD que Kostas, o músico amigo de Thomas Liolios, compôs. Essa música grega abre inúmeras portas no meu edifício mental de Europa.
Vejo Tonino Guerra ralhando com um cão atrevido na sua varanda sobre o vale verdejante; vejo Theo Angelopoulos que trabalha no seu escritório sem se dar conta que a luz do dia já se foi, e Eleni, a sua assistente, na sala ao lado aguardando pacientemente o seu chamamento; vejo Luca Nicolaj percorrendo as ruas de Roma no seu passo sereno; os amigos da Edison desabafando entre si a desilusão pela vitória de Berlusconi; o casal Libeskind trabalhando entusiasmado no seu estúdio, construindo maquettes enquanto lá fora Berlim tenta pôr-se de pé; Sara de Roo bebendo o seu chá, entre uns telefonemas para os STAN e o ensaio da próxima produção; vejo o burburinho incessante desse animal complexo que é o Parlamento Europeu, cheio de pequenas células ocupadas; vejo Gregory Motton na sua sala de estar e Ramin Gray que lhe entra pela casa dentro com a confiança dos velhos amigos; vejo Joseph Danan no seu recém-habitado apartamento, simples e acolhedor, tanto um como o outro.
E por fim é a própria voz de Thomas Liolios que canta e me transporta a Veria, àquele dia em que, na escola de Aristóteles, ele fez a pergunta que agora se torna premente: “Estar aqui... deu-vos alguma ideia para um espectáculo?”.

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