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Bruxelas, 29 de Maio - estratégias ganhadoras [ CC ]

Um Eurodeputado de um país cúmplice, leia-se do sul, convida-nos a apresentar projectos ao Parlamento Europeu, mas aconselha: " Quando o vosso dossier estiver completo e com todos os elementos exigidos a última coisa que devem fazer é entregá-lo; se o fizerem está tudo perdido. Primeiro vêm cá, falam comigo, eu falo com outros colegas, ouvimos uma opiniões, conversamos com calma. Só depois se mete o projecto; só quando houver a certeza que vai ser aprovado."
Pronto, eu estou esclarecido. Agora só falta esclarecer os milhões de cidadãos Europeus que pensam que as únicas regras obrigatórias são as publicadas no Jornal Oficial das Comunidades.

Bruxelas, 29 de Maio - politicamente correcto [ CC ]

Depois de tantos meses, e inclusive um espectáculo, a trabalhar alegremente o "politicamente correcto" enquanto conceito e linguagem teatral, fomos meter-nos mesmo na boca do dito lobo. Agora, como nos disseram no fim, podem dizer que apresentaram o vosso projecto ao Parlamento Europeu. Pois podemos. É certo que poucos pareciam interessados em ouvir. Mas podemos dizer que fizemos o que, nos nossos tempos, é mais importante do que o fazer propriamente dito.

Bruxelas – 29 de Maio [ AV ]

No início da sessão da tarde da Comissão do Parlamento Europeu para a Cultura, Juventude, Educação, Media e Desporto, o deputado italiano Ruffollo apresenta as conclusões de um estudo relativo aos programas culturais da Comunidade. Alguns pontos são discutidos, algumas alterações propostas. Quando o Sr. Ruffollo retoma a palavra refere uma imagem que em tempos lhe transmitiram na escola: “Se cada um de nós tiver um dólar e os trocarmos, cada um de nós volta a ficar com um dólar. Se cada um de nós tiver uma ideia e as trocarmos, cada um de nós ficará com duas ideias.”
Parece-me de facto uma boa história para repetir bem alto aos ouvidos dos políticos, empresários e outros formadores de mentalidades que insistem em empurrar os países para o caminho do sucesso económico a todo o custo, mesmo que o custo seja a estupidificação total, o embrutecimento intelectual, emocional e criativo das populações.
Mais à frente Ruffollo faz outro comentário sensato e pertinente. Parece-lhe necessário que as reflexões da Comissão ultrapassem as paredes da própria Comissão e encontrem eco nos artistas e populações a quem os programas culturais se destinam, para que não se tornem discussões políticas desligadas da realidade de cada país.
Um bom passo, penso, é a possibilidade de, como hoje, a Comissão poder ouvir e debater directamente com artistas que têm preocupações a partilhar. Mas o caricato da situação é que, apesar da concordância velada com as palavras de Ruffollo, chegada a hora da nossa apresentação a maioria dos deputados parte em debandada. O dia foi longo, há documentos a ler, apresentações a preparar, amanhã é dia de plenário... as razões são várias mas o paradoxo permanece.

Parlamento Europeu [ CM ]

Em Bruxelas há placas que indicam “Instituições Europeias”. Mas chegados ao centro das “Instituições Europeias”, ninguém sabe muito bem onde fica a rua que procuramos, qual dos edifícios é o do Parlamento Europeu, o que realmente é ou funciona no edifício. Nem o porteiro do edifício do Conselho de Ministros sabe que o Parlamento é o edifício logo atrás dele. Em Bruxelas, no centro da Europa, não é fácil chegar aos centros onde a nossa vida é decidida. É o “Castelo”.

Comissão [ CM ]

Os tradutores simultâneos estão em caixas de vidro à volta da sala. Primeiro os alemães, ingleses e franceses. No fim os portugueses, gregos, e alguns nórdicos.
O melhor de uma sessão de trabalho em que todos querem apanhar o avião depressa e as deputadas inglesa e alemã controlam todos os temas, é girar o botão das traduções e ouvir as 11 línguas seguidas. Ou fixar o olhar numa das tradutoras dinamarquesas, que mesmo sabendo que ninguém olha para ela, fala com as mãos com tal convicção que por momentos faz-me acreditar que compreendo dinamarquês.

Vasco Graça Moura [ CM ]

Na União Europeia há três potências e uma contra-potência: os franceses que ainda não perderam as manias imperialistas de Napoleão e obrigam-nos a todos a sustentar um parlamento em Estrasburgo que não serve para nada, os alemães que mandam, a Espanha que é a potência emergente e vai a todas as lutas, e os ingleses que votam contra.
As comunidades de emigrantes portugueses espalhadas pelo mundo recebem as delegações de representantes do seu país com fatos minhotos.
Em Bruxelas há boas livrarias.
E tem toda a razão.

Notas Belgas [ PC ]

1. Entro a conduzir em Antuérpia e há obras por todo o lado fazendo lembrar o Porto 2001. À porta do hotel cheira mal. Pouco depois apercebo-me que não é só à porta do hotel mas um pouco por todo o lado e atribuo a causa às terras baixas daquelas paragens (até há a anedota da cegonha que não consegue voar na Flandres...)

2. No dia seguinte estamos com a Sara dos STAN. Falamos de teatro, de caminhos, de pessoas. Fico surpreendido por ela, que faz teatro em diversos países da Europa, não conhecer nenhum grupo de teatro da Bélgica francófona. Fico surpreendido mas não muito, afinal de contas faz parte da natureza do Ser Humano querer ir/ver mais além e viajar e aprender e descobrir e... deixar a família para trás e não saber o que faz o vizinho que, se calhar, também anda a fazer o mesmo. Talvez um dia nos encontremos todos do outro lado do mundo em terra neutra.

3. Entro a conduzir em Bruxelas... restaurantes portugueses... mais obras... Perguntamos onde é a entrada para o Edifício da Comissão do Parlamento Europeu e... nem o segurança sabe onde é! O segurança que provavelmente é muito bem pago para guardar o sítio onde o deixam de manhã... não importa onde. Haja pachorra.

4. Conversa com o escritor e eurodeputado Vasco Graça Moura. Entre outras coisas falámos das comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo. Parece ser tipicamente portuguesa a forma como nos fechamos sobre nós próprios com esta mania da saudade (oh, meu Deus, que sentimento mais Português não há!) dos tempos dos quais fugimos e que agora queremos relembrar. Senão o que é essa mania do pessoal se vestir à minhota nas festas de Nova Iorque, Paris ou mesmo na Venezuela, e ter o seu rancho de música folclórica (uma invenção do Estado Novo tornada tradição à força da repetição)?

5. Sessão da Comissão do Parlamento Europeu para a Cultura, Juventude etc... Um deputado dormitava durante os assuntos dos outros... depois acordou e falou do que lhe interessava e apresentou o seu relatório. Levou de todos os lados por falta de rigor e pouco trabalho. Naquele pequeno hemiciclo tudo é muito moroso e burocrático mas em momentos como este é feita justiça. A sessão decorreu normalmente. Nós também falámos e não íamos pedir nada. Ao que parece ouviram os do costume. Houve alguém de um país amigo que nos disse como pedir apoios na União Europeia. Não foi realmente nada de novo e o ar de virgens ofendidas fica-nos mal.

6. À noite... mais um restaurante italiano.

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