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Berlim, 24 e 25 de Maio [ AV ]

1 – Saltamos do autocarro berlinense em Potsdamer Platz, o suposto centro da nova Berlim. A primeira sensação (que aos poucos se torna a dominante) é a de esterilidade – um sítio desconfortável, onde a vida passa mas não se instala. Uma “placa” redonda e branca de onde sobressaem edifícios de arquitectos famosos que surpreendem pela diversidade e pela altura. Surpreendem e assustam. Lembram-me um poema de Blixa Bargeld num tema dos Einstürzende Neubauten: “Your arms would not be able to stretch as far as necessary to form an adequate gesture for beauty”.

2 – Seguimos por uma das artérias que saem de Potsdamer Platz e logo ali damos com um resto preservado do muro. Entre as pinturas que o adornam há uma que diz : “Tudo fica melhor, nada fica bem”. Nina Libeskind, mulher do arquitecto Daniel Libeskind, considera que hoje o muro está “seis polegadas abaixo do chão e seis polegadas acima do chão”. Ou seja, é feito de tudo aquilo que não vemos mas que as pessoas carregam dentro de si e tudo aquilo em que tropeçamos de vez em quando, passeando pela cidade. Não se ultrapassa a dor de uma memória dolorosa arrasando um muro mas sim enfrentando-o diariamente e integrando-o na memória que deixamos para os que hão-de vir.

3 – Ao lado do Museu Judeu de Berlim existe um pequeno parque infantil algo invulgar. Não temos a certeza se não terá sido também desenhado por Daniel Libeskind. Mas temos a certeza que o baloiço que lá se encontra é o melhor em que já andámos. Quase sem fazer força atingimos uma altura incrível e ficamos a flutuar sem esforço, para trás e para a frente, com a sensação de que nunca irá parar.

Berlim, 25 de Maio - contas de cabeça [ CC ]

"Sempre que encontro um velho Alemão não consigo evitar fazer contas. Sabendo a sua idade calculo a idade que teria durante a guerra. Assim fico a saber se era demasiado novo para ter feito alguma coisa ou se já tinha idade para colaborar com as SS. Das duas uma."
Nina Libeskind diz-nos ainda que um estudo revelou que 60% dos Alemães da ex-RFA gostariam de ter o muro novamente de pé; entre os da ex-RDA a percentagem sobe até aos 80%. É como se muito mais insuportável do que ter uma fronteira seja a situação em que temos a fronteira, porque a sentimos todos os dias, mas não a podemos definir exactamente. Reconstrua-se o muro para sabermos onde está a vergonha.
Dias mais tarde, em Aachen, Daniel Libeskind cita Churchill e diz que " se há uma coisa de que podemos ter a certeza é da continuidade do conflito.”

Berlim [ PC ]

Agora é mais fácil estar na Alemanha... Já não é preciso fazer contas...
Os nazis já morreram quase todos, o muro já não existe, as pessoas estão juntas e tudo é um grande centro-comercial... Isto durante o dia.
À noitinha regressa tudo à normalidade. Não só em Berlim mas também em nossa casa, no nosso País e dentro de cada um de nós.

Berlim [ PC ]

A propósito da conversa com Nina Libeskind mando para o ciberespaço este diálogo entre duas consciências à beira do sono
— O acidente pode ser provocado?
— Nesse caso não é acidente.
— Sim... mas existe uma pré-disposição para o acidente?
— O acidente?
— E então o imprevisto?
— O quê? Também pode existir uma pré-disposição para o imprevisto?
— Sim. E é nos acidentes que se cresce!
— Crescemos para onde?

Berlim [ CM ]

Mal chegamos vamos procurar as fronteiras apagadas das duas Berlins. Locais que foi necessário repensar e reconstruir e para os quais Daniel Libeskind tinha projectos que foram recusados. Não percebo que projectos teria Libeskind, mas agora nada disso interessa. As ruas e praças que vemos são largas de mais, está tudo longe demais. Os edifícios são imponentes o suficiente para não lhes tocarmos, mas não o suficiente para os recordarmos individualmente. Nada me lembra a 'minha' Europa, a dos edifícios velhos, das ruas estreitas onde o sol corta as sombras. Aquela será inevitavelmente a Capital económica ou política da Europa. Duvido que o possa ser dos Europeus, incluindo os alemães. Entre Potsdamerplatz e Alexanderplatz há duas coisas que destoam: a ponte sobre o rio donde se tem uma visão bonita da cidade, mas infelizmente a ponte em si é tão larga que não pode ser ela mesma bonita, e um prédio de Hans Kollhoff que parece derreter-se ao sol, mas infelizmente o sol não pára na Potsdamerplatz.

Nina [ CM ]

Nina Libeskind fala depressa e com certezas. É um bocadinho assustadora. Mas o que diz dá-lhe uma humanidade tão grande que apaixona. Fala do atelier, do seu crescimento e funcionamento sem esquecer que faz anos de casada. Fala da decisão difícil para um casal de judeus de ir viver para Berlim, do abandono da família que se recusava a pôr um pé sequer em solo alemão, mas simultaneamente da ajuda familiar para começar de novo a vida num novo país. Da multiplicidade de origens de quem trabalha no atelier e das contas que faz quando vê um alemão velho para saber se ele pode ter servido nas SS. Da forma como o marido trabalha e da idade dos filhos quando se mudaram para Berlim. Do trabalho crescente do marido e da dor de não conseguirem construir nada em Berlim desde o Museu Judeu. Da vida deles na Alemanha hoje ser mais fácil porque quem serviu os nazis já morreu ou está a morrer, e de como em Berlim se perdeu a oportunidade única de fazer algo de realmente bom para a forma como se lida com o passado e as fronteiras..

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