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Notas de Atenas [ JM ]

As pedras estão mortas. Os porteiros, ausentes.
Estes sítios, que sempre fizeram parte da identidade europeia, estão habitados por um povo que sente na pele a inclusão e exclusão de que foi feita a Europa.
Alimentamo-nos das carcaças dos seus antepassados e esquecemos a sua contemporaneidade e a sua necessidade de olhar o futuro.
A Odisseia e o Parténon são mais europeus que gregos.
Recordo desde Roma o choque da destruição dos Budas no Afeganistão. Aqui, como em Roma, sinto que a história das civilizações faz reféns inocentes... ou nem por isso.
A mosoikés, em grego contemporâneo, passou a moussikis. Além disso, reconhecemos todos os vocábulos essenciais que construíram as nossas artes, ciências e ideias.
Atenas, como cidade, é assustadoramente suburbana. Em tempos, disseram-nos, face à pressão demográfica do êxodo rural, um ministro decidiu a demolição dos edifícios neoclássicos que pontuavam a cidade. Agora, tudo parece construção ilegal.
O sítio que definiu os conceitos de Pólis e de Arkitektonikés, na era moderna, votou-os ao ostracismo.
De resto, em Atenas, cidade de 4.5 milhões de habitantes, deve ser fácil estudar o caos. E à noite, revela-se a essência mediterrânica deste povo.
Ficamos sem perceber bem se também estes querem ser europeus do norte...

16 de Maio, Angelopoulos [ CM ]

Quando viaja não há ainda guião para um filme; é na viagem que o irá encontrar. Mas percebe-se do que conta que há um guião da viagem. Não haverá então um pré-guião do filme? Será possível alguma vez deixar tudo na mão do acaso? Ou também o acaso se escolhe, e o segredo dos génios é saberem escolher bem o seu enquanto julgam que se deixam transportar pelas imagens que correm do outro lado da janela?
Enquanto viaja vai quebrando fronteiras, encontrando equilíbrios, pensando no que é intransponível. Vê a procissão dos exilados e as novas fronteiras da Europa, enquanto atravessa as velhas. Sabe que as novas não se atravessam facilmente, se calhar são mesmo intransponíveis. Mas o tempo de pensar nelas é o tempo da viagem, que não as atravessa, mas possibilita ficar face a elas.
Sabe que a viagem nos permite ver o que se deixa para trás, mesmo que seja difícil saber o que isso é. Como casa só temos a língua - os locais e as pessoas mudam, desaparecem - e viajamos para nos sentirmos menos estranhos dentro de nós mesmos; buscamos incessantemente o equilíbrio impossível (quem pára é porque desiste, não porque encontrou). A história dessa busca é toda a vida, por isso só perto da morte se percebe muito do que se perdeu - é no fim da viagem que é clara a ideia do caminho percorrido.
E quando nos fala do mundo, como o Tonino também já tinha feito, conta-nos as histórias da sua vida. E ao fazê-lo comove, não pelo que viveu, mas pela beleza com que o fez e com que agora o partilha.

Atenas - 16 de Maio [ AV ]

Theo Angelopoulos fala-nos de Marcello Mastroiani que, pouco antes de morrer, lhe confidenciava: "Theo, não vamos fazer o próximo filme juntos." O fim estava perto, mas Mastroiani representava ainda no teatro, apesar de magro e doente. Nas ruas e nos cafés as pessoas aplaudiam à sua passagem.
E ele tinha um último lamento: "Sei que vou morrer, estou habituado à ideia. Mas queria tanto poder ver o que se vai passar..."
Esta curiosidade, diz Angelopoulos, é o destino do homem, que toda a vida se sentirá insatisfeito.

Atenas - 16 de Maio - Angelopoulos [ CC ]

Angelopoulos está sentado do outro lado da secretária. A persiana está meio corrida e a janela meio aberta. Ele fala. De repente surge um camião do lixo perfeitamente enquadrado com a janela. É um gigante que solta fumo pela cabeça, em grande esforço. O barulho é ensurdecedor. Sinto a penumbra do escritório e já não ouço o que Angelopoulos diz. Ainda assim sei que fala das fronteiras que temos de atravessar até chegar a casa. Sei que fala das oliveiras e do desejo de regressar. Não ouço uma só palavra e sei que estamos juntos.

Grécia - 17 a 20 de Maio [ PC ]

Fica a sensação de que a Grécia nasceu no oriente e se esconde no ocidente. Pela sua língua, pelo seu alfabeto (ab), pelas pessoas, pela sua história transversal a muitas culturas e fronteiras, porque é realmente o berço da nossa civilização, porque viaja e porque acaba sempre por regressar a casa.

Theo Angelopoulos - 17 de Maio [ PC ]

Em Atenas um desconhecido chamado Theo Angelopoulos fez-me pensar no percurso de uma viagem: o que se vê ou procura através dos vidros.
O que é que nos inspira? A partida, o percurso ou a chegada?
Regressamos ao fundo de nós próprios para reparar que já não estamos lá?
O que deixámos para trás é o que vamos encontrar mais à frente?
Temos que partir de novo para procurar porque partimos.

Atenas [ CM ]

Nada parece o mesmo visto de vários ângulos, mas no caso de Atenas mudar o ponto de vista é mudar de cidade. À luz do dia e dentro do emaranhado das ruas, é uma cidade suburbana que lembra Portugal há 15 anos, mas com a vantagem de ter casas de banho públicas limpas. De noite, quando a escuridão tapa o desbotado das paredes, é uma típica cidade mediterrânica, onde apetece passear. Vista de cima, ao sol, é um lago branco preso entre montanhas, em que o betão, que não deixa livre nem um metro quadrado, faz ondas quando galga as montanhas. À noite é um mar imenso de luzes e sombras com muito pouco de Europeu; talvez São Paulo. É, mais uma vez e como sempre, um problema de perspectiva.

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