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Antuérpia - 27 de Maio [ AV ]

Não me sinto bem em Antuérpia. De algum modo tenho a sensação de que vim parar ao lado negro do "melting pot" - não consigo identificar diferentes modos de vida e pensamento num mesmo espaço, apenas uma amargura em toda a gente.
Há uma rudeza pouco saudável no ar e nos rostos. Há mesmo alguma "indiferença" no aspecto da cidade.

Vejo estas características até em Sara de Roo, apesar de nos receber com croissants e café, apesar de falar de bom grado, de se rir...
Num Domingo de manhã, na zona árida do porto, com metade da companhia ausente em França, o grande espaço de trabalho dos STAN parece-me uma expressão directa da própria cidade. As portas estão abertas, somos recebidos como deve ser, mas é difícil abrir a segunda porta mais discreta que leva ao entusiasmo, à urgência do encontro.

Felizmente com Sara conseguimos abri-la. Com Antuérpia não.

Antuérpia, 27 de Maio - En passant [ CC ]

A Sara é Flamenga. Conhece bem a realidade teatral da Bélgica, Holanda, Alemanha, França, Inglaterra...mas também já passou por Portugal, Suécia, etc.. De repente, entre duas vírgulas, diz-nos que relativamente à Bélgica Francófona não conhece grande coisa porque nunca fez lá espectáculos. Nunca a convidaram, se calhar não há interesse dos Valões no teatro Flamengo, tenta explicar-nos. São cinquenta quilómetros e ela diz que não conhece. É sempre assim. A grande fronteira é sempre com o nosso vizinho e falamos sempre dela, entre vírgulas, como se não existisse.

Sara de Roo [ CM ]

A tranquilidade de saber que caminho se trilha, que percurso é esse em que pessoa e trabalho coexistem plena e equilibradamente. E a fome, a necessidade de procurar mais e mais o que realmente interessa, renova-se.
Mesmo que a verdade não seja assim tão simples, mesmo que o conflito seja duro e permanente, a Sara, sem nunca dizer nada com certeza, sem nunca esconder os problemas, mostra na calma e convicção com que fala que é possível. E isso é muito.

Antuérpia [ CM ]

Jacques Brell cantava que os flamengos dançam sem sorrir. A verdade é que há um café mesmo ao pé do hotel em que flamengos velhos dançam animados. Não sei se riem. Mas sei que têm todos os cantos da boca caídos, permanentemente zangados. Talvez seja com o cheiro desagradável que cobre a cidade. Talvez porque a cidade branca é muito mais parda que branca e está suja. Talvez por não ser possível ganhar sorrisos enquanto estiver presente a opressão dos Valões. Mesmo que isso hoje não exista, como diz a Sara. Que também vai dizendo que nunca fez nenhum espectáculo na Valónia. (Já fez na Europa quase toda, só lhe falta o sul do seu país.)
Os arruamentos novos do Porto parecem seguir o modelo dos de Antuérpia. Esperemos que não nos façam cair os cantos da boca. Mas nesta terra de língua estranha há outra coisa que lembra casa: o grafismo do “ano da moda” que celebram é muito parecido com o de Serralves. Cada vez mais casa é também a forma como ela é vendida.

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