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[ 30 de Maio a 1 de Junho ]

GRANDES MENTIRAS

 

Londres recebeu-nos com Sol. Nem sombra da chuva e do nevoeiro com que a pintam nos filmes. Pelo contrário, um Sol radioso puxou-nos para a passeata junto ao Tamisa. Uma visita rápida à colecção permanente da Modern Tate, ao aconchego de uma sala dedicada a Mark Rothko na penumbra, longe das criancinhas barulhentas que pululam por todas as alas. Um gelado à beira rio e o primeiro deslumbramento na livraria do National Theatre, inteiramente dedicada ao teatro.
Um dia depois, o arrebatamento completo na Charing Cross, com livrarias gigantescas, labirintos “Borgeanos” de livros, normalmente mais baratos que qualquer refeição num restaurante londrino. Lá fora, as ruas fervilham em todas as línguas. Teatros por todo o lado com cartazes anunciando as lotações esgotadas. Junto do Covent Garden, um espectáculo de rua faz-nos estacar. No final, o actor reclama uma contribuição aos presentes, sob pena de acabarem com o teatro de rua. A assistência obedece. Talvez com medo que o teatro acabe.
Para depois do jantar, a entrevista com o escritor Gregory Motton que receberá apenas os actores do Visões, as únicas pessoas que conhece deste projecto. A redenção fica marcada para a noite seguinte, em encontro com todo o grupo num pub vizinho.
É estranha a sensação de estar com alguém com tão fortes dificuldades no relacionamento com outros. Ainda assim, Motton parece mais intimidado consigo do que com a nossa presença. Avança timidamente pelo diálogo que tentámos estabelecer à volta da dramaturgia, da Europa e do Herói. A ironia começa a aflorar o discurso e a iluminar a mesa. Motton revela-se o autor politicamente empenhado que nos tinham apresentado. Alguém que sofre violentamente com o estado das coisas, com a mesquinhez do cidadão comum, “de esquerda, de direita ou galinha, de acordo com a moda” e fala da grande mentira que o capitalismo impõe, da substituição da religião pelo consumismo, dos heróis pelas celebridades. Alguém que reage à ditadura do Royal Court, reescrevendo os textos para que sejam mais “eficientes”. Para que a meia dúzia de pessoas que escolhe os textos apresentados no bastião da nova dramaturgia possam entender as suas palavras.
Desse grupo faz parte um seu amigo, Ramin Gray, que nos mostrou o Royal Court Theatre, um espaço desde sempre ligado às modernas dramaturgias, atribuindo cada vez maior importância ao local sobre o global e sobre a forma, levando o mesmo formato a todo o mundo. Ramin constata nos textos que recebe, uma tendência para a imitação em várias línguas do que “está a dar” no Royal Court, a tendência para a produção de sucedâneos de “Shopping & Fucking” adaptados aos diversos países. Manifesta-se contra essa política ditatorial e castradora sobre como se escreve um texto de teatro. Mesmo fazendo parte da máquina que assim formata o teatro. A mesma máquina que recusa os textos de Motton, suficientemente londrino para se incomodar com essa gente.

 

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imagem © Visões Úteis
Ramin Gray, Londres

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