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[ 26 a 29 de Maio ]

DO TEATRO COMO GESTO POLÍTICO À POLÍTICA SEM GESTO

 

De Berlim a Antuérpia, atravessando a planura da Holanda, a única fronteira visível é o que resta do posto fronteiriço que dividia as Alemanhas.
Antuérpia surge suja como uma cidade depois de um dia de feira. Plásticos e papeis voando por todo o lado e um problema de saneamento acompanhando-nos por quase todas as ruas durante todo o fim de semana.
É aqui que estão instalados os STAN, companhia de teatro com nove anos e reputação firmada em grande parte da Europa. O seu trabalho baseia-se numa análise exaustiva do texto e, nesse sentido, não ensaiam, reservando para o palco o confronto das pulsões que o estudo do texto foi suscitando. Por isso, adoptam cenografias simples e bandas sonoras essencialmente compostas por músicas pré existentes, misturadas no palco.
Tal como o Visões, não têm alguém que assuma isoladamente a direcção artística nem trabalham com encenadores. Assumem-se como companhia de actores.
Na altura em que chegamos à Bélgica, metade da companhia encontra-se a apresentar um espectáculo em Toulouse. Recebe-nos Sara de Roo, uma das actrizes, no dia de folga dos ensaios para a produção que estreará no princípio de Junho. A conversa nasce fácil, em torno de preocupações e gestos comuns. Traçam-se paralelos entre o percurso das duas companhias e descobrem-se as diferenças e as fronteiras. Ao contrário de qualquer grupo de teatro português, os STAN escolhem as salas onde querem apresentar os seus espectáculos e fazem-no sem dificuldade entre a França e a Holanda, em Inglaterra, Itália e até em Portugal. Contudo, nunca actuaram no sul da Bélgica e aí, mais uma vez, o vizinho como o outro, a comichão sob a pele. E entre Flamengos e Francófonos, a separação entre os belgas é completamente assumida, apesar de Sara não identificar razões que ainda hoje sustentem esse afastamento. Mais uma vez, o peso da educação e da memória.
Finalmente, o distanciamento em relação a Bruxelas, um país dentro do país, a capital política da Europa, símbolo de união e pouco mais.
Será esse o nosso próximo apeadeiro. Aí nos encontraremos com Vasco Graça Moura para um almoço no Parlamento Europeu. O templo da estatística e das decisões macro-económicas é um edifício feio e mal decorado. O encanto da nova Babel quebra-se assim que se passa a porta de entrada. Parece uma gigantesca repartição pública, espaço para burocracia e não para a comunhão dos povos.
Graça Moura surge afável por trás da cigarrilha. Apresenta Bruxelas como um grande negócio em torno dos cem mil estrangeiros que trabalham ligados à Comunidade Europeia. Ao contrário do esperado, pouco acrescenta à visão que o escriba tinha do poeta e pensador. Revela-se o euro-deputado culto e viajado, consciente das alterações no mundo mas longe da realidade portuguesa. Como as comunidades de emigrantes de que fala, que sempre o recebem com trajes de minhota e grandes bacalhoadas.
Quanto à Comissão para a Cultura, Juventude, Educação, Media e Desporto, exceptuando a meia dúzia de deputados que aguentaram estoicamente até ao final da sessão em que apresentámos uma comunicação sobre o Visões Úteis e sobre este projecto em particular, assiste-se a um desinteresse geral por todos os assuntos que não cabem na pasta de cada um dos deputados.
Parece que na política, pouca gente entende a diferença entre compromisso e comprometimento.

 

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imagem © Visões Úteis
Sara de Roo (STAN), Antuérpia

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