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[ 24 e 25 de Maio ]

O QUE QUEREMOS ESQUECER E AQUILO EM QUE TROPEÇAMOS

 

Chegámos a Berlim num feriado alemão, calmo e solarengo. Entre gruas e estaleiros, a nova e imponente cúpula do Reichtag e mais longe, o novo centro da cidade, a Potsdamer Platz, transformado em centro comercial, com dinheiro da Sony e da Mercedes Benz, com assinatura de arquitecto, muito brilho e pouca alma.
Seguindo o trilho do Muro, vê-se a réplica do Check Point Charlie. O original está no museu e nas lojas ao lado, depósito dos fetichismos dos turistas. Até ao vazio da Alexander Platz, fica a ideia de que alguém apagou um desenho antigo e procura agora pintar sobre uma folha demasiado rasurada para esconder o original.
Invade Berlim o silêncio de um centro comercial contrariado pela chapa fria do Museu Judeu, pedaço de História cravado na cidade. Como o obelisco de Kubrik. As portas do museu abrir-se-ão ao público apenas em Setembro. Ainda assim, é já paragem obrigatória para milhares de pessoas.
Daniel Libeskind, o autor do projecto, viu-se obrigado a deslocar-se a França por motivos profissionais, delegando na sua mulher, Nina, a generosidade de falar connosco. E é entre maquetes do Museu Judeu e das ideias para a renovação da “Terra de Ninguém” que conversamos sobre a reunificação que quase não saiu do papel. Segundo Nina, “as fronteiras de Berlim estão seis polegadas debaixo do chão e seis polegadas acima, nas coisas que queremos esquecer e naquelas em que tropeçamos”. A vontade de unir rapidamente o que muitos anos separaram redundou no desperdício de oportunidades únicas para a renovação urbana e social. Mas, antes de tudo, a coragem de mudar radicalmente de vida, instalando-se em Berlim, pouco depois da queda do Muro, sendo uma família judia. O hábito de fazer contas para perceber qual o papel que um alemão mais idoso poderia ter desempenhado nas SS ou na Gestapo.
A memória é um fardo pesado. Ainda hoje, alguns familiares se recusam a visitá-los em solo alemão.
Três dias mais tarde, em Aachen, Daniel Libeskind confirmará as suas palavras sobre a arquitectura, a necessidade de, em cada projecto, criar um espaço sem precedentes, convocando a memória, a filosofia, a música, o cinema e todas as referências suscitadas pelo programa.
É um discurso apaixonado, de quem acha que a arquitectura é uma actividade espiritual, que os arquitectos não podem ser apenas técnicos, que é necessário perceber a perenidade das obras e das cidades. Tal como os Romanos acharam que o Coliseu sobreviveria aos séculos, também nós nos esquecemos, ao debruçarmo-nos de um arranha-céus, que as cidades e os impérios caem e se renovam continuamente.
É essa a consciência que transpira do seu trabalho, sem nunca pretender ignorar a memória, assumindo e integrando todos os muros que nos enformam.

 

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imagem © Visões Úteis
Berlim

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