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[ 18 e 19 de Maio ]

DO OLIMPO A HOLLYWOOD

 

No monte onde as musas repousam, a solidão das papoilas abriga uma Afrodite de bruma. O pai de Alexandre, o Grande, construiu ali um palácio, vigiado pelo mar e pelo Monte Olimpo. Dizem que Hércules também se passeava por lá. Talvez por isso, na Escola de Aristóteles no monte das ninfas, há uma gruta escavada na encosta para albergar os amores divinos. A entrada é um quadrado do tamanho de um deus e nenhum homem por lá pernoita. Mais além, no Monte Athos, a meia-noite marca o momento em que o Sol se põe. Algumas horas mais tarde, começa a missa que durará até ao nascer do dia. Nesse momento, os monges e os crentes têm uma refeição digna de um rei e, assim que o último comensal termina o repasto, entoam alguns cânticos religiosos. Se o cozinheiro tiver cometido algum erro, debruça-se sobre a mesa pedindo desculpa, enquanto os presentes se dirigem para o mosteiro para uma pequena oração.
A Filosofia nasce na água do ribeiro que corre à nossa frente.
Não é possível racionalizar esta paisagem.E a guerra é já ali ao lado, contra a Turquia, na Macedónia e na Albânia.
No cruzamento dos montes, dos impérios e dos exércitos, fica Veria, pequena cidade com setenta e duas igrejas para sessenta mil habitantes. A parte velha da cidade organiza-se em ruas estreitas, com casas unidas por pátios e igrejas do Império Otonomano. Curam-se ainda as feridas da guerra civil grega, procuram-se novas Ágoras e novas relações. Porque “vivemos uma altura privilegiada para repensar a Europa e as relações humanas”. Quem o diz é Thomas Liolios, um dos responsáveis pela programação cultural do município, interessado em levar o espectáculo desta viagem até Veria, lá para o final do ano. Thomas mostra-nos a região, falando da História e dos mitos, priviligiando as relações sobre o indivíduo, não escondendo as marcas que a guerra civil e a ocupação turca deixaram na maneira de pensar e reagir dos gregos por exemplo, na velada desconfiança em relação aos refugiados albaneses, apesar da abertura com que os acolhem. Sobretudo, nota-se a vontade de partilhar tudo, a linguagem, as histórias e a cultura, na viagem em busca das semelhanças e das diferenças porque “só Hollywood consegue pôr um sueco, um alemão, um português e um grego a chorar ao mesmo tempo”.

 

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imagem © Visões Úteis
Palácio de Alexandre, O Grande, Veria

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