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[ 14 e 15 de Maio ]

A CIDADE PARDA

 

Despertámos cedo para a partida de Roma. A rua onde estacionámos a carrinha três dias antes está transformada numa feira. Meia dúzia de bancas de roupa, bugigangas, guarda chuvas, cassetes piratas e objectos que tais alinhadas ao longo dos passeios, estendendo-se sobre o asfalto. Entre Português e Italiano tentámos retirar o veículo do meio da confusão. Em dois minutos, somos envolvidos pelo mercado e a carrinha parece o prolongamento das bancas de roupa. Uma das vendedoras insiste em não mover a sua banca nem um mílimetro e desata numa torrente de eloquente calão italiano. Tentámos explicar à senhora que o barco para Patras parte de Bari ao fim da tarde. Ainda assim, parece que nada a moverá. Contudo, talvez por se aperceber das dificuldades que o nosso monstro de metal pode trazer ao negócio, acaba por ceder e por entre calças de ganga e muita ginástica de volante, lá conseguimos sair da confusão.
Um suspiro de alívio até Bari.
Ao início da noite, partimos de barco para a Grécia. A viagem durará quinze horas e meia e aparece como a altura ideal para um primeiro balanço. Da discussão no convés fica a certeza de que a internet se apresenta, até ao momento, como a maior fronteira que encontrámos. Ao contrário do que esperávamos, as centrais telefónicas dos hoteis são mais eficientes no controlo do acesso à rede do que qualquer guarda de fronteira.
Sobre os convidados, a satisfação de reconhecermos alguns pontos de vista comuns mas, sobretudo, o prazer de ter contactado com pessoas atentas ao mundo, capazes de repensar a vida e o mundo a cada momento, partilhando ideias e experiências diferentes com sete desconhecidos de um canto da Europa.
Amanhecemos no mar, entre as ilhas que pairam no Adriático, aparentemente desertas e completamente indiferentes à nossa passagem.
Chegámos a Patras por volta do meio dia e a primeira impressão é a de entrarmos num compêndio de Física, com fórmulas por todo lado mas, ao mesmo tempo, uma certa familiaridade nos rostos, nas ruas, na condução completamente desregrada.
No trajecto para Atenas, a montanha e o mar entram-nos pelos olhos sem pedir licença mas a cidade é estranha, parda. Parece um imenso subúrbio de construções ilegais, um amontoado de patos bravos imersos numa neblina de poluição, vigiado do alto pela Acrópole. Não há espaço para respirar. Não se pode passear a pé. A cidade engole-nos e há um certo gozo nisso. Um irresistível convite à deambulação sem destino, à procura de deuses e filósofos. Para já, o único encontro marcado será com Theo Angelopoulos. Talvez os deuses também apareçam.

 

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imagem © Visões Úteis
Atenas

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