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[ 10 a 13 de Maio ]

O POETA COM OLHOS DE MENINO

 

Serpenteando ao longo do rio Marechia, iluminados pelas igrejas dispersas pela montanha, nascendo das escarpas, chegámos a Pennabilli, “a terra dos artistas de rua” segundo a placa à entrada da povoação.
O burgo resume-se a pouco mais que uma praça sossegada com alguns velhotes jogando cartas numa esplanada, a serra por todo o lado e o escritor Tonino Guerra.
O escritor vive numa pequena encosta voltada ao Sol da tarde. Uma dúzia de gatos preguiça à entrada, completamente indiferentes à nossa chegada.
Tonino recebe-nos num alpendre sobre os montes, embrulhado no silêncio da montanha. Ali, o tempo corre devagar, talvez não chegue sequer a passar. Tonino tem olhos de menino e mãos de pedra. Fala como se escrevesse. Trata-nos por ragazzi enquanto pergunta pelo espectáculo “Schiu!”, encenado pelo Visões com base no seu “Livro das Igrejas Abandonadas”. Fala-nos de viagem e de regresso. As marcas que a língua e a comida materna deixam são demasiado fortes. Ainda assim, às vezes deixámo-nos ficar por uma mulher, por um lugar, por uma paixão. E a cada momento, a comida como metáfora, a essência das memórias num prato de pasta, o trabalho e a amizade com Tarkovsky ou Angelopoulos descritos pelas refeições. E é o seu encantamento que nos leva a visitar San Leo, uma vila histórica debruçada numa escarpa, a uma hora de Pennabilli e a jantar em Pietracuta onde, a conselho do poeta, comemos a melhor pizza da região.
O dia seguinte é de peregrinação, pelas igrejas e os locais da obra de Tonino. A viagem torna-se uma busca pela Literatura encantada até à capital do império, onde chegámos à hora do jantar.
Depois do sono redentor, a viagem a pé pelas ruas de Roma, entre igrejas e lambretas até à Piaza Navona e à entrada no Vaticano para trabalhar com o encenador Luca Nicolaj.
Mal nos conhecemos. Une-nos um amigo comum e o Herói como tema de trabalho. O programa para dois dias está mais ou menos em aberto e partirá do desenvolvimento, em palco, de improvisações orientadas por Luca.
Avançámos à procura do H do herói, a cicatriz que pode fazê-lo mover. As limitações, a vergonha, a virtude, o olhar dos outros, heróis improvisados num pequenino auditório sob uma espécie de centro paroquial, a dois passos da Basílica de S. Pedro.
Durante dois dias, trocámos experiências e ideias sobre o palco. Ao jantar, o incontornável receio de mais cinco anos de Berlusconi. Luca não arrisca resultados, as ruas cobertas de cartazes de todas as cores não apontam direcções.
A política vende-se da mesma forma em todo o lado.
Acompanhámos Luca à mesa de voto, concorridíssima. Por essa altura, ainda se acredita numa possibilidade de derrota de Berlusconi. Depois do jantar, as primeiras projecções dizem o contrário.
Talvez seja a prova de que vender um presidente é tão fácil como impingir um sabonete.

 

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imagem © Visões Úteis
Tonino Guerra, Pennabilli

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