Cidade dos Diários : Apontamentos
Textos de Nuno Casimiro.

Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005

a evidência partida em dois

As portas fecharam-se com um pequeno estrondo, deixando um rasto pequeno sobre tudo o resto. Um barulho rápido, de sucção, impondo-se por instantes ao restolhar dos passageiros e dos seus sacos de plástico, à luz ampliada pelo pára-brisas, ao ar abafado que substituía a janela aberta.
Pensava na deambulação entre pensamentos, no exercício frágil da luz, quando o fecho das portas o interrompeu, misturando as imagens. Como no pisa-papéis de vidro que alguém lhe deu. Um bloco de vidro, fechado, com uma pequenina casa com cerca, casota do cão e árvores no interior, e uma espuma branca que se precipita lentamente quando se agita o vidro.
Pousou a mão no volante. Apercebeu-se desse movimento como um foco mais intenso, quase implacável a alisar o terreno, a oferecer a salvação. Sentiu a borracha morna a afeiçoar-se à palma da mão. Como que anotou: “entre um gesto e outro, a existência a partir-se em dois: o tempo contado a sangue e a divagação à superfície”. Sentiu os dedos envolvendo o volante.
E logo a observação se afundou de forma quase súbita numa imagem nova e difusa, deixando uma memória suave como as estrias que sobrevivem na água ao lançamento de uma pedra.
Entre uma imagem e outra, observou um espaço impreciso, ainda não um novo pensamento, nem já a frase quase anotada, nem mesmo a terra novamente arada e impoluta. Apenas a nuvem de espuma branca precipitando-se numa esfera de vidro. Entre divagações, uma amálgama indefinida, não de ideias, mas de objectos-quase: quase-ideias, quase-imagens, quase-memórias.
Finalmente, uma observação acabou por materializar-se nesse lapso, um destroço do pensamento precedente assomando à superfície deturpado: “entre um gesto e outro, a evidência a partir-se em dois”. E imaginou os olhos mexendo muito depressa, em movimentos curtíssimos e imperceptíveis pela rapidez. Procurava anotar a frase, não a esquecer sob a imagem dos olhos em movimentos ampliados.
Soou o sinal de paragem e acendeu-se um ícone sob o volante. Tornaram-se de novo audíveis os sacos de plástico e os carros do lado de fora. Sentiu a borracha do volante acomodada aos dedos.
De novo uma nuvem branca sobre as palavras encorpadas como casas e a imagem dos olhos, agora desfocada.
Pensava num corpo partido em dois quando as portas se fecharam.

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Quinta-feira, Janeiro 27, 2005

Inventário II (“Rosebud”)

Os primeiros volumes são pequenos e estreitos, blocos de apontamentos de guardar nos bolsos, com oitenta páginas apertadas por um elástico preto. Os cadernos posteriores têm o mesmo número de páginas, mas com dimensões maiores, e estão depositados na estante ao lado das caixas com os blocos pequenos. Cada página corresponde a um dia e, no total, encontram-se já catalogados os dezoito mil, novecentos e setenta e três registos diários.
Cada registo é composto pela indicação do dia e do mês, seguidos de alguns substantivos. A quantidade e diversidade de substantivos aumenta com o tempo e é sobretudo a supressão de alguns deles, entre um caderno e outro, que permite ordenar cronologicamente o espólio.
As primeiras anotações apresentam um leque reduzido de nomes comuns, com pequenas variações ao longo dos primeiros cadernos pela supressão de alguns termos ou inclusão de outros – algumas vezes antónimos dos iniciais – num total de não mais que dez palavras por registo, ordenadas arbitrariamente.
Água, sono, ferro, azul, membrana e palimpsesto são as primeiras palavras indicadas. Em registos posteriores, são incluídos (e depois suprimidos) alguns nomes próprios – Afonso, Matilde e Isabel – mas a grande maioria das entradas é composta por nomes comuns. Da diversidade de palavras anotadas nestes cadernos apenas uma é repetida em todas as páginas: palimpsesto.
Nos cadernos mais recentes, é visível um aumento do número de palavras registadas até aos últimos cinco volumes. Nestes, há um retrocesso gradual no número e variedade de substantivos, acontecendo com frequência crescente a repetição em cada registo de apenas três ou quatro palavras. O último caderno, interrompido na página sessenta e sete, é composto essencialmente pela palavra palimpsesto e por termos desconhecidos, repetidos até aos limites das páginas: kloz, aka-sim, nitzmasa, clarte.

Publicado por nc às 19:33 : Link Permanente
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Inventário I

Colecciono dias. Cidades
de cabelos compridos.
Ranger de dentes
na porta.
Bafio. A morte
em fragmentos de luz
e vapor
de linho.

Publicado por nc às 17:55 : Link Permanente
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Terça-feira, Janeiro 18, 2005

Diário I

Às vezes sangro.
É um hábito que não perdi.
E também mudo a água do aquário
dia sim
dia não
para que o oxigénio não me falte.

Publicado por nc às 09:07 : Link Permanente
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Quinta-feira, Janeiro 13, 2005

do macro e do micro em escala pequena (o capricho do pequeno músculo )

Desta vez saí mais cedo.
Costumo sair quando todos os outros da secção, cinco minutos depois da sirene das cinco. Às cinco, todos os dias, a sirene lança o aviso e as máquinas deixam de resfolegar. Fechamos as válvulas de pressão enquanto as últimas três ou quatro peças são colocadas nos tabuleiros, descemos os dois degraus da plataforma e avançamos para os cacifos da parede do fundo a trocar as batas cinzentas pelos casacos. Com a excepção de Marcus, todos acendem um cigarro enquanto fecham as portas dos cacifos, como que a marcar a sensação do dever cumprido. Depois, quase em fila indiana, vamos picando os cartões de ponto. Cada um com um rectângulo de cartão esverdeado na mão, apontando a caixa do relógio.
Não há na repetição destes gestos qualquer tipo de ritual. Apenas não há espaço para a improvisação porque o percurso entre as máquinas, os cacifos e o relógio do ponto é pequeno, porque não somos muitos, porque em pouquíssimo tempo se esgotariam as variantes possíveis para sair do trabalho. Porque entre a sirene e o portão da fábrica ficam apenas cinco minutos de transição, incontáveis, presentes apenas para ligar dois bocados de dia.
Somos apenas seis, nesta secção. Eu e Marcus operando uma máquina cada um, os dois Lamberti ladeando um dos tapetes rolantes e os irmãos Cassini o outro. Eu e Marcus controlamos a alimentação das máquinas e verificamos os níveis de pressão, óleo, água e nutrientes. Os outros quatro encarregam-se de diferenciar as peças que as máquinas vomitam sobre os tapetes rolantes. É um trabalho simples que exige apenas alguma concentração e movimentos serenos: premir alguns botões, rodar pequenas alavancas. Os dois Lamberti e os irmãos Cassini seleccionam as peças e depositam-nas nos tabuleiros metálicos que dividem a nossa secção da de embalagem. Cada um tem junto de si um bidão para colocar as peças defeituosas. Por dia, cada máquina lança no seu tapete rolante cerca de 4800 peças. Destas, aproximadamente 330 têm pequenos defeitos e são rejeitadas. É esta a parte importante do nosso trabalho, separar o material impróprio do restante.
Não há, nesta mecanização dos gestos, qualquer aproximação às máquinas. Apenas executamos tarefas claras, controlamos processos, como quem se alimenta sem provar o sabor da comida. Rodar a alavanca para a esquerda como vestir o sobretudo quando chove. Nunca fixei, sequer, a cor dos mostradores.
Quase não falamos. O ambiente na secção é demasiado ruidoso e as tarefas que cada um tem de cumprir exigem, apesar de tudo, demasiada concentração para que possamos trocar impressões durante a laboração. Por isso, cada um de nós assume o seu papel em silêncio, comunicando apenas pela forma como executa as suas funções. Um exemplo: sei sempre quando o filho mais novo do Lamberti à minha esquerda teve um ataque pela forma ausente como deixa cair as peças rejeitadas, sem mesmo se aperceber quando alguma delas cai no chão. Mais nenhuma circunstância exterior provoca este tipo de comportamento no Lamberti da esquerda. Outro exemplo: quando o irmão que está fora lhe envia dinheiro, os gestos tornam-se mais leves, num mover de mãos mais suave, como uma espécie de pequeníssima dança. Outros acontecimentos acabam por definir outras subtis derivações dos comportamentos mas, a cada um corresponde sempre a mesma variação dos movimentos.
Por isso conversamos pouco. Apenas na pausa para o almoço, enquanto avançamos juntos para a cantina e à saída, desde a paragem das máquinas até nos separarmos junto ao portão da fábrica, Marcus na bicicleta, os irmãos Cassini numa motorizada muito velha, o Lamberti da esquerda no autocarro e o da direita num carro com mais três homens doutra secção.

Hoje saí mais cedo, por volta das três. Os outros acabaram por seguir-me.
Foi uma espécie de tontura. Um ponto entre este momento e aquele, um lapso, como se o ponteiro do relógio tivesse escorregado nalguma rebarba do mostrador e saltasse um traço. A máquina parou cinco segundos depois, quando o mecanismo de segurança se apercebeu que eu não estava mais ali. Os Lamberti levantaram os olhos do tapete rolante e, vendo-me no chão, correram a chamar o supervisor. Este chamou o médico que, por sua vez, chamou a ambulância.
Fiquei pousado no chão, de olhos voltados para o tecto. A pele pesando sobre a gordura e os músculos, ambos pesando sobre os ossos e os órgãos internos, todos pesando sobre as camadas inferiores de músculos e gorduras e ossos, todos pressionando o corpo contra o cimento do chão.
Tinha os olhos abertos mas não conseguia falar, percebendo atrasado os movimentos dos outros, no meio de uma amálgama gelatinosa de sons e gestos. Não conseguia mover-me mas, pela primeira vez, sentia o corpo inteiro. Pela primeira vez, tinha a percepção exacta do espaço ocupado pelo meu corpo, do meu peso sobre o chão da secção. Sentia as moléculas agrupando-se aos poucos, preenchendo os espaços livres, a conferir propriedade ao corpo. Uma correria barulhenta de plaquetas e glóbulos sustentando a imobilidade dos membros, solidificando rapidamente, como vidro ou metal fundido, ganhando forma por oposição ao ar. Sou um gigantesco pisa-papéis de olhos abertos.
Ouvi o médico dizer que fora um capricho do pequeno músculo, um súbito tropeção em contratempo. Que havia urgência em seguir para o hospital mas que, muito provavelmente, a coisa se resolveria numa semana.
Assim pesado e imóvel, deixei-me colocar sobre a maca. Sentia o ar quebrar-se e contornar-me à medida que me carregavam do chão para a ambulância, o meu corpo empurrando a maca na direcção do chão.
Saí por volta das três, pesado, sob o olhar dos Lamberti, um de cada lado da maca, sem saber o que fazer com o tapete rolante parado e eu saindo mais cedo.

Publicado por nc às 19:35 : Link Permanente
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Sábado, Janeiro 08, 2005

o ponto (obliterar o dia)

Todos os dias, depois de vestir o pijama, puxava a colcha para trás e alinhava os chinelos junto à mesinha de cabeceira. Depois, pegava no bico do compasso e picava um dos dedos da mão esquerda, entre duas estrias da impressão digital. A escolha do dedo era aleatória: apenas uma forma de vincar a arrumação do quarto, de vigiar vagamente a realidade, num jeito silencioso de obliterar o dia.

Publicado por nc às 09:08 : Link Permanente
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